quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Por um Natal com a verdade possível..

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UM BOM NATAL



Deus está vivo….

No “mais fundo do fundo” do hipócrita “espírito de Natal”, minado pelas estratégias comerciais, ainda é possível vislumbrar a mensagem essencial:

Deus é de todos e para todos.
Ultrapassa e faz convergir as diferenças culturais (significadas no “Reis Magos”), é anunciado ao Mundo pelos mais desprovidos (os pastores), desde logo perseguido pelos poderosos (simbolizados no tal Rei Herodes).

Mais tarde, deixará a Família, a sua Terra, a sua Segurança e irá tratar de mudar o Mundo. Afinal, fazer o essencial.

Depois, será morto, mas Deus só morre por 3 dias…; mas essa é outra parte da história, porque não há Natal sem Páscoa.

Agora, celebremos o nascimento e o seu simbolismo.


UM BOM NATAL, PARA MIM, É ISSO :

ACREDITAR QUE UM NOVO MUNDO SEMPRE TEM SIDO POSSÍVEL ! E JÁ TAMBÉM É!

O desgosto do ano e as novas esperanças, ou seja, como alguns pobres diabos não atingiram os seus objetivos...




Chegou ao fim, em 30 de Junho deste ano e 2013, quase há 6 meses, a minha vida profissional  em Avis (que havia iniciado em Fevereiro de 2011). Cerca de mês e meio antes, no "facebook", anunciei essa intenção,
O então suspender, em 2012 , das aprovações, "sine die", de financiamentos comunitários a projetos de trabalho social e de formação, sem data, da autoria do inenarrável Governo, tornaram intolerável, para mim, um "limbo laboral" de quase 14 meses.
Agradeço o apoio que tive, nesses anos, por parte  os avisenses que em mim acreditaram.

Depois, vieram os desgostos.
Dois incidentes, em que, como promotor de formação, fui BURLADO por duas entidades formadoras, tornaram, durante o mês de Junho, a minha vida em Avis intolerável e insuportável, pois mesmo os meus amigos (ou que o pensava serem) não tiveram dúvidas em me assacar culpas, por ignorância, má fé ou manipulação, de algo onde o principal prejudicado fui eu. Esqueceram os principais culpados : as ditas empresas de formação, independentemente de terem ou não mudado de nomes e donos.
Alguns, pobres diabos, nem tiveram dúvidas em recorrer a coação física, ameaças telefónicas, e, em Setembro, recorrendo a "capangas" (os cobardes nunca dão a cara), me extorquirem 400 € sob ameaça. O assunto será em breve tratado em sede própria (e mais não devo dizer), por conta dos supostos prejuízos causados.
Esquecem o fundamental. Tenho consciência do que ajudei a realizar : 6 600 horas de formação para desempregados e activos, com 75 formandos diferentes; o nascer de uma procura deste tipo formação/conhecimentos que não vi em mais algum lado; o "abrir da porta" de uma Instituição que nunca o tinha feito; o nascimento de uma Universidade Sénior ( entretanto parece que encerrou), o acolher da Associação Juvenil Sombra Partilhada em espaços de minha responsabilidade...
Tenho consciência dos "anti-corpos" que criei : as "beatas" nem me podiam ver; os poderes políticos locais passaram da paixão inicial a um não assumido, mas visível, alheamento, num "tirar do tapete" muito "soft", mas evidente...
Deixei Avis triste. Mas pertence ao passado.

Porque sou um "resistente", vou continuar a apostar no desenvolvimento  do interior (estive em Setembro e Outubro em Ferreira do Alentejo) nos locais difíceis , ou junto de quem trabalha com públicos difíceis (como aconteceu em Novembro e até há dias, em Faro). Daqui a dias, lá vou para outro local, muito mais a Norte.  Ao contrário dos pobres diabos, sempre servis aos poderes e a quem financia, terei sempre um novo projecto pessoal e profissional, mesmo aos 56 anos. Pablo Neruda disse "Confesso que vivi". Assino por baixo, mas conjugo o verbo no presente..

Porque gosto de Mercados Municipais...





Ao longo da minha vida, habituei-me a frequentar mercados municipais, desde muito pequeno.
Gosto do cheiro que têm, mesmo se intenso, como o do peixe, ou doce, como dos vegetais e frutas, ou agressivo, como o das bifanas e café, porque no mercado, a vida começa cedo e, lá para as 7h da manhã, já se come algo substancial, tipo almoço antecipado.
A minha vida nestes úlimos anos fez-me, por gosto e curiosidade, ir a muitos mercados, talvez porque acordo cedo, talvez porque gosto mesmo, isto nos diversos locais onde a vida profisional itinerante me leva. Mas a verdade é que procuro sempre o mercado municipal, onde quer que esteja.
Vejo e vou a muitos : aqueles que, após obras de requalificação, perderam quase a sua importância, porque os clientes se transferiram para as grandes superfícies, aqueles que, também requalificados, continuam vivos e com muita gente.
Mas há algo que só os mercados municipais têm : aquela vida muito madugadora e intensa, onde se cruzam vendedores, compradores, jovens universitários a "curarem" a ressaca recente, gente "respeitável" com "tróleis" para compras, "alternadeiras" que deixaram o "serviço", sem-abrigo que vão beber um café, polícias que saem do turno, etc., todo um conjunto que só aí se junta sem discriminação ou preconceitos.
Em Évora, no Mercado, na minha última passagem profissional por essa minha terra, habituei-me, ás 7h 30m da manhã, á bifana no "Martinho", ao copo de branco no ambiente tauromáquico do "D. Bárbara", á genebra no café "Pequeno Almoço" ; esse era o meu matutino almoço, isto entre pessoas que, a essa hora, já comiam de garfo e faca...
Há semanas, descobri o Mercado de Faro e lá tomei várias vezes, durante o mês em que chamei minha aquela cidade, o meu almoço antecipado, ás 08h 00: favas com enchidos e "meio quartilho" de branco, por 3 €, seguido de genebra.
Eu já voltei aos Mercados.  Passos Coelho ainda aspira a isso....
 

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

CRÓNICAS DE AVIS (VII) - EM AVIS FALTA CIDADANIA ATIVA


Fez, em 14 de Fevereiro, 2 anos que vim residir para Avis.
Geralmente, 2 anos não chegam para que alguém possa opinar sobre o local onde vive, ainda mais quando essa vivência começa por ser feita por causa da vida profissional e, só depois, se torna uma opção pessoal de fundo.

Contudo, penso ser o meu caso diferente. Logo no primeiro dia que pernoitei em Avis, logo no primeiro fim-de-semana que cá passei, tive a preocupação de andar muito na rua, saber onde ficavam os cafés, saber os locais do (pouco) comércio, etc. Sempre assim fiz, nos muitos locais onde tenho vivido, por razões profissionais que, cedo, se tornam pessoais. Nunca fui de ter “torres de marfim” onde me refugio, feito “Senhor Doutor” ou “intelectual”. Às vezes perco mais do que ganho, mas, enfim, são escolhas.
Tudo isto, penso, autoriza-me a ter opinião sobre o que faz falta em Avis .

Assim, começando pelo fundamental :
EM AVIS FALTA CIDADANIA ATIVA

Chocou-me, nos meus  primeiros dias  de Avis, em 2011, o contraste com a Vila que eu conhecera no tempo da “Reforma Agrária” : via, agora, ruas desertas,  casas degradadas e abandonadas, o que levava a pensar : “Onde me vim meter ?”.  Por causa da atividade profissional que cá vinha fazer (abrir as portas de uma Fundação “em banho maria” e organizar, na mesma, um pacote de formação) , logo tive de contactar com os Poderes Locais, fossem eles órgãos municipais ou instituições. Fui corrigindo essa imagem. O sítio “onde me vim meter” tinha características próprias, mas, era potencialmente vivo, e isso logo ficou evidente, por exemplo, nas mais de 60 pessoas que, durante um ano, procuraram e frequentaram formação, ou no encanto inicial (sublinho o “inicial”) que os poderes tiveram pela minha pessoa e pelo que eu fazia.

Esperavam-me experiências e tempos difíceis, um ano depois de cá chegar (digamos, a partir de Fevereiro de 2012) : os poderes locais, porque, gradualmente, perceberam as minhas opções políticas e ideológicas (que nunca escondo, sublinho), começaram um lento “tirar do tapete” e um camuflado desincentivar de tudo o quê lhes parecia feito ou emanado da minha pessoa. Recordo o episódio, de 5 de Novembro de 2011, com a apresentação da Universidade Sénior de Avis : nesse dia e na sua preparação, “pompa e circunstância”; depois, o desinteresse, a omissão, que se foi transmitindo a alguns que voluntariosamente, se tinham oferecidos para trabalhar. Houve quem me dissesse :  “Como a Câmara não apoia, isto nunca vai ter força para continuar, logo, não vou perder tempo a colaborar…”
Em suma, este (e outros) episódios levam-me a pensar o seguinte :

- EM AVIS, UM PODER LOCAL, QUE DURA HÁ 36 ANOS, POR TER SIDO IMENSAMENTE “PAI DOMINADOR”, CONDICIONOU A CAPACIDADE  DA POPULALÇÂO PARTICIPAR

Explico melhor : como em muitos locais do País, onde o Poder (seja de que cor for) é esse “pai dominador”,  cresceu, aqui, um espírito de “comprar tudo feito”, ou seja, a população habituou-se a usufruir de bens e produtos (culturais, educativos, associativos, até económicos) sem ter necessidade de participar na sua produção, na sua conceção, ou, mesmo, de ter ideias novas para eles. O Poder Local e alguns outros poderes institucionais substituíram-se á republicana ideia da participação cidadão e apropriaram-se dela . Mesmo, salvas honrosas exceções, o movimento associativo ou alguns “bem pensantes” locais (repito, aqui como noutros muitos locais) tende a viver, de forma subsidiária, em relação a esses poderes, receando, até, autonomizar-se deles ou pensar e agir de forma que o “afronte”.
Numa terra que foi, há menos de 40 anos, a “capital da Reforma Agrária”, um movimento social de vasta participação popular, isto parecia-me estranho.

Contudo, não o era, numa segunda análise. Nesses tempos brilhantes do pleno emprego no Concelho, no fundo, as pessoas já iam “comprando tudo feito” : eram os dirigentes que desse movimento que  eram o tal “pai dominador”, cuja preocupação era que todos tivessem o que precisavam, fornecendo-o, e não envolvendo as pessoas em todo o processo que a tal conduzia. As pessoas eram “consumidores finais” de um bom produto (sem dúvida), mas não estavam totalmente envolvidos em todo o processo.

Ora, se tivermos em conta que o movimento social da Reforma Agrária foi dirigido pelo PCP e que o mesmo PCP sempre teve o Governo Político do Concelho, podemos concluir que o “pai dominador” funcionou sempre, na história contemporânea do nosso Concelho, tudo provendo, tudo fornecendo, considerando desnecessária a participação dos cidadãos ou fazendo dela um mero cerimonial. Veja-se, por exemplo, naquilo que eu considero, num Concelho supostamente governado á esquerda, as tristes e cinzentas cerimónias das comemorações do 25 de Abril, onde não vi quase nenhum “cidadão comum”, como eu e onde nem a oposição nos órgãos autárquicos compareceu. Veja-se, por exemplo, a frase, que quantas vezes ouço, tipo “A Câmara que faça !”, ou, numa outra face da mesma moeda, a preocupação , quando existe uma nova iniciativa, “Mas a Câmara sabe que isto vai acontecer ?” (esta já me aconteceu 2 vezes). Ou, um caso institucional, o falhanço da tentativa de implementação, em Avis, da Agenda XXI Local, metodologia de gestão participativa de um município.

Em suma, Avis precisa de uma cidadania ativa.

Como referi, há exemplos excelentes, em Avis, de iniciativas do movimento associativo, repito, iniciativas próprias, que, naturalmente, os poderes apoiam, logística e financeiramente.

Mas, continuando a usar a linguagem da psicologia, não sei se o assumir da cidadania, em Avis, pelas pessoas, não passará pela substituição de um Poder que é “Pai dominador” (tudo faz, põe ao dispor e controla), por um Poder que seja “Pai nutritivo” (que estimula, suscita atitudes e iniciativas, respeita a autonomia e caráter de cada um e apoia).

 

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2013

RETOMO O MEU BLOG, EM EXCLUSIVO COM "CRÒNICAS DE AVIS"



Este blog tem vários anos.
Em 25/05/2012, encerreva (pensava eu...) um conjunto de textos chamados "Crónicas de Avis".
Iniciei-o em 11/04/2011, 2 meses depois de ter "assentado praça" em Avis  e, hoje, considero que essas foram as crónicas do meu encanto, com uma terra e um Poder que acolhia tudo o que eu sugeria; a última, de 25/05/2012, é a crónica de um desencanto quase final. Por vezes, as "Crónicas de Avis" cruzavam-se  com as "Crónicas do Marco", outro Concelho que é a minha paixão, mas onde, hoje, não resido.
Hoje, reabro este espaço. Porque, em Junho de 2012, resolvi que a minha vida profissional e social, nesta terra do Mestre de Avis, que uma estranha aliança quiz liquidar, só dependia de mim. A Universidade Senior e a Àgora Avis por mim falam ...
Vai haver eleições autárquicas em Novembro e eu, Avisense por opção, que escolhi, há 2 anos, aqui viver, aqui tenho morada oficial, aqui irei votar, julgo-me no direito de dizer o que penso, sobre o melhor para a minha terra atual. Sem que ninguem me tenha "encomendado o sermão".
Quem quiser atualizar-se e ler o que, antes, escrevi, sobre Avis  - CRÒNICAS DE AVIS" (do encanto ao desencanto, diria hoje ), aqui deixo as datas dos "posts", ainda disponíveis na barra respetiva :
11/04/2011
02/05/2011
17/05/2011
24/06/2011
03/09/2011
25/10/2011
25/05/2012
A todos e aos Avisenses em especial agradecerei leituras e comentários.


terça-feira, 22 de janeiro de 2013

 
 
 
 
 NO FIM DA TELENOVELA "GABRIELA" : MUNDINHO FALCÃO/ANTONIO JOSÈ SEGURO..

Vi, com 20/21 anos, a novela “Gabriela”, na sua primeira versão.

Aos quase 56 anos, vi a versão atual. 36 anos mudam, claramente, o nosso modo de ver. Não que a sensual Sónia Braga fique atrás da Juliana Paes. Teria dificuldade em me posicionar sobre a beleza de qualquer delas. Não é disso que quero falar. Quero falar de um personagem , Mundinho Falcão, que, nas cenas finais, me marcou, em ambas as versões. Só que nesta última, talvez porque estou mais consciente, chocou-me, porque antevi, quase, a postura de alguém que até é do meu Partido.

Mundinho Falcão, um democrata,, em Ilhéus, gasta a sua vida e fortuna a afrontar e combater os Coronéis do cacau, políticos títeres e tiranos. Escapa, mesmo, a tentativas de assassínio. Choca, com o seu modo de vida, a catolicamente hipócrita sociedade local (onde, afinal, a maior beata havia sido prostituta…).

Na véspera da eleição, o seu opositor, Coronel Ramiro, morre de doença súbita. Logo os Coronéis o visitam, com uma delegação, oferecendo-lhe o apoio, que ele aceita. Dos mesmos que, horas antes, conspiravam para o assassinar…

No dia da vitória em eleição (digamos assim, por falta de comparência do adversário), lá estava, á boca das urnas, um bando de Coronéis e jagunços, “conferindo” de cada eleitor iria votar em Mundinho. E ele pactuou.

Eleito, no seu discurso de tomada de posse, Mundinho elogia o papel do seu antecessor Coronel Ramiro (o tal que ele combatia e que o tentou matar e o impedia de namorar a neta, internando-a num Convento), como determinante no desenvolvimento de Ilhéus, mas, prometendo mais“abertura” e desenvolvimento. E, depois, passeia-se nas ruas, com os símbolos do Poder dos Coronéis (a bengala, o charuto), com os Coronéis ao seu lado.

Lembrei-me de António José Seguro. Se calhar, ainda este ano, ganhará eleições por “morte política” de Passos Coelho. Ou seja, por “falta de comparência” do adversário. Sobretudo por isso.

Ao “namorar”, numa recente entrevista, o PSD “verdadeiramente Social Democrata”, como possível aliado de diálogo, contra o PSD “Liberal”, seleciona os “Coronéis” com quem quer estar acompanhado.

Por tudo isto, a alternativa política tem de ser liderada pelo PS (claro…), mas aliado á Esquerda parlamentar e á esquerda “das ruas”, e não ao “Coronéis” arrependidos…

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Deus, se morre, é por três dias...



Sobre o sentido social da morte de Jesus Cristo
Estes texto foi publicado, por mim, no Jornal "Açoriano Oriental", de Ponta Delgada, na longínqua Páscoa de de 1992; foi republicado no Jornal "Clarim", de Arruda dos Vinhos, na Páscoa de 2004.Hoje, recupero-o, 20 anos depois.
Porque é verdade.
Porque existe uma contra-natura (uma vez mais) aliança entre o Poder Político e o Poder Religioso.
Porque, em Avis, o Poder dos Corvos, dos "Sepulcros caidados de branco", feito "beatas", tudo exterminam e assassinam o trabalho social, vilipendiam o atendimento social, onde "corvos" assitem ao aco técnico de atender.
Porque hoje voltaria (ou voltei, porque já perdi tudo o que tinha a perder) a escrever o mesmo. Haja vergonha e seriedade !

" Não é novidade, para ninguém, a importância que o calendário judaico-cristão atribuiu á Páscoa. Embora por razões e factos diversos, essas duas grandes famílias religiosas fazem,desse tempo, ponto alto do seu ano.Gostaria de me reter sobre o facto que, para todos os cristãos, marca a Páscoa : a morte/ressurreição de Jesus. Quero fazê-lo como simples "leigo", ou seja, enquanto pessoa que acredita que, para além das leituras mais ou menos "místicas" e "sagradas", há um significado social, uma interpretação "civil" desse acontecimento, que é património de toda a Humanidade, do qual nenhuma Igreja institucionalizada é proprietária exclusiva.Há dias, ouvia num templo católico, um sacerdote afirmar que Jesus havia morrido por nós, para nos "resgatar". Tudo bem. Mas, para nos resgatar de quê ? Da morte, dirão alguns, pois deu-nos a vida eterna; do pecado, dirão outros, pois assumiu, sobre si, as culpas de todos nós. Perfeito ! Na catequese dominical aprende-se muito....Mas, para alguém que não tenha fé, que não acredite na vida eterna, que ache o pecado uma figura de retórica, que ensinamentos pode tira da morte de Jesus ? É aí que me quero deter, dando despretensioso contributo para uma interpretação "civil", social, da morte de Cristo.A morte de Jesus é a aniquilação do Eu.Explico-me :Jesus disse um dia "Eu sou a Vida"; quem tal afirma, não pode ter personalidade frágil, nem desejar a morte, nem escolhê-la, como um vulgar suicida. Nada nos Evangelhos permite pensar tal. Jesus apresenta-se como um homem determinado, que afronta o "establishment" da época. Por exemplo, uma vez a multidão pretendia precipitá-lo de um monte, , mas, segundo os Evangelhos, Jesus, muito naturalmente, "passou por entre eles e seguiu, sem ser molestado". Isto só pode ser feito por alguém de forte carácter.Assim, como primeira conclusão, resulta que Jesus era um Homem de forte personalidade.Passemos a um segundo aspecto. Um dia, Jesus afirmou: "Se alguém quiser vir após mim, negue-se a si mesmo, tome a sua cruz e siga-me"."Negue-se a si mesmo". Que pode significar tal expressão ? O mesmo que muitos outros convites que fez : para "deixar tudo" e segui-lo, para "não olhar para trás, após ter deitado as mãos ao arado". Mas avancemos mais. S. Paulo fala, anos depois, do "Homem Novo", fruto da "morte" do Homem sem fé. O próprio Jesus já havia falado de "nascer de novo".Fica claro que, nesta acepção, a mudança, para a nova vida que Jesus trazia, se fazia pela negação da anterior, por um corte com a vida que, até aí, se fazia; ou seja, é condição, para a nova vida, que se deixe a antiga.Eis a segunda conclusão : teríamos de nos esvaziar de nós mesmos, para que, dentro de nós, algo nascesse de novo, diferente.Juntemos, agora, essas duas conclusões. Um homem, de forte personalidade, ensina os outros a esvaziarem-se de si mesmos. Paradoxalmente, parece que quer ser seguido por gente despersonalizada, que, voluntariamente, perdeu o carácter, para serem do seu "rebanho". Nada mais errado. A chave da interpretação do paradoxo é a morte de Jesus.Expliquemos: Jesus morre porque quer.No seu processo jurídico, teve várias "deixas" para evitar a condenação. Não o fez. Para cúmulo, já crucificado, acusa Deus Pai de o ter abandonado ("Meu Deus, porque me abandonastes ?").Eis a chave : Jesus, o tal homem de forte personalidade, considerando-se o Filho de Deus, experimenta a suprema negação de si mesmo, de todas as suas certezas, deixa "cair" todos os seus atributos por terra : já não é o líder de massas, o suposto "rei" dos Judeus, sequer o Messias, muito menos o filho querido de Deus. Experimenta a suprema aniquilação do seu "eu", deixa por terra aquilo que ele mesmo sabia ser.Que podemos concluir : o Cristianismo é o elogio da desporsanilação ? Não, não nos precipitemos.Jesus aniquilou o seu "eu", experimenta a "morte"; de tudo, mesmo das suas certezas. Mas, atenção, ressuscita, depois. Ou seja, reassume todo o seu ser, todo o seu "Eu", mas, digamos, já fortalecido, robustecido, consolidado, transformado pela experiência que foi perdê-lo.Então, que conclusão tirar ?Como religião de preceitos sociais, o Cristianismo é de vivência colectiva. O próprio Jesus havia dito "Onde dois ou mais estiverem juntos em meu nome, eu estarei no meio deles" (Mat.18:20). Ou seja, a morte, a aniquilação do nosso "Eu", só tem sentido se acontecer para que algo nasça de novo. mais robustecido. Jesus não diz "Onde um estiver em meu nome", mas, sim, têm de ser dois ou mais...; assim, só faz sentido que eu deixe "cair" a minha concepção de vida, a minha ideologia, a minha personalidade, se, daí resultar o surgimento de uma nova ideia de vida, uma nova forma de ver o mundo, uma personalidade nova.É este o sentido social da morte de Cristo : Não há personalidades, certezas, ideias, filosofias, que se possam considerar fortes se, continuamente, não estiverem dispostas a deixar-se "cair" a "negar-se", para que depois nasçam de novo, mais robustas e transformadas.Esta "negação" tem um profundo sentido social. Se eu, perante o outro com que me relaciono (em casa, no trabalho, na vida social e política, etc), me dispuser a perder a minha ideia (mesmo que a julgue a mais adequada), a minha concepção, a minha imagem, concerteza estou mais aberto a ouvir o outro, a considerar a sua opinião, a ver o positivo das suas propostas. E o outro, se estiver na mesma disposição de "negar-se a si mesmo", sem dúvida que, entre nós, no meio de nós, nascerá uma ideia mais perfeita, uma concepção mais aperfeiçoada, uma opinião mais consensual, uma maneira mais eficaz e eficiente de fazer face ao problema.Mas tudo começou porque alguém "morreu" para si mesmo...; mas fez isso não pelo prazer da dor e da "morte", ou para se "auto-flagelar" ou humilhar de forma masoquista, mas para, três dias depois, "ressuscitar" .E mudou o mundo e a vida de muitos.Por isso, faz sentido "morrer", mas para "nascer de novo".
Vila Franca do Campo (Açores), Páscoa de 1992

segunda-feira, 5 de março de 2012

Um estado de alma : A invenção do Amor

Transcrevo um poema lido na minha juventude, tinha 17 anos, nas licões liceais de Filosofia.
Hoje, recupero-o, porque me ajuda a perceber que a verdade das causas, sentimentos e afectos esbarra, sempre, com os "fariseus" do costume, portadores dos pensamentos mais conservadores da época.
Aqui entendo o Amor não como só a pessoas, mas a causas e valores, também.

A Invenção do Amor


Em todas as esquinas da cidade
Nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
Mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
Na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
No átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
Um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho do medo da solidão da angústia
Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel
Numa tarde de chuva entre zunidos de conversa e inventaram o amor com caracter de urgência
Deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
E souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente embora subterraneamente
Unidos pela invenção conjunta de um amor subitamente imperativo



Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
Colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou
A TV anuncia iminente a captura
A policia de costumes avisada procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial é possível que se escondam
Tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher conheceram-se, amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los antes que seja tarde
E a memória da infância nos jardins escondidos acorde atolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio um menino pediu uma rosa vermelha
E chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado
aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto
Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado e submetido a um tratamento especial de recuperação


Mas é possível que haja outros
É absolutamente vital que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
De que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
O destino das máquinas das bombas de hidrogénio
Das normas de discriminação racial
O futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
A verdade incontroversa das declarações políticas


É possível que cantem mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra respondeuque a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos
Água simples correndo
A brisa das montanhas
Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
Foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele um misterioso halo de uma felicidade incorrupta


Procurem a mulher o homem que num bar de hotel
Se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
Senhas, salvo-condutos, horas de recolher, censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura, é preciso encontrar o casal fugitivo
Que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
Numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz ter sentido de súbito uma estranha paz interior
Uma voz desprendendo um cheiro a primavera o doce bafo quente da adolescência longínqua

Daniel Filipe (1925 - 1964)
"A Invenção do Amor e Outros Poemas", Lisboa, Presença, 1972

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Neste País, não há lugar para...


Este País não é para "piegas". Passos Coelho disse...; com uma imensa autoridade que lhe vem donde ?
Passos Coelho esteve com Viriato, nos Montes Hermínios, combatendo, durante 3 décadas, o magnífico exercito do Imperio Romano ?
Esteve em Covadonga e nas Asturias, no seculo 12, contra os recem chegados árabes ?
Esteve em 1383/1385, na "arraia miúda", em Lisboa, Atoleiros e Aljubarrota, a garantir..., como o seu sangue num exercito de voluntários, um Rei escolhido pelo Povo ?
Esteve, em 1640, em Avis, Ameixial ou Elvas, a defender esse mesmo desígnio?
Esteve, nos anos trinta do seculo XIX, junto dos progressista, no "Cerco do Porto", no combate de 24 de Agosto, no desembarque do Mindelo ?
Esteve, em 1914/1918, na mais cruel guerra do seculo XX (a dita 1ª Grande Guerra), onde milhares de portugueses foram massacrados sem sequer saber ao que iam, tal como na hedionda guerra colonial ?
Poucos se podem orgulhar de lá estarem; contudo, sabe-se lá porquê, estiveram. "Piegas" não eram...
Podemos ser acomodados, suspiciosos, pouco participativos, mas , quando chamados a agir nos momentos das grandes decisões, do "dar a vida", de "piegas" pouco temos (basta pensar nos Bombeiros Voluntários).
Vamos lá de corpo inteiro. Somos tendencialmente heróis, nunca "piegas".
Somos Portugueses. Com quase sete séculos de História, coisa rara na Europa.
Passos Coelho é que não nos merece. Mas temos de aturar cretinos !

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A Associação de Estudantes da Universidade de Évora, 35 anos depois


Um amável convite para a tomada de posse dos orgãos sociais da Academia que ajudei a fundar, em 1978, fez-me interromper este silêncio "bloguista".
Mas a causa é justa, e após um noite académica, onde pude explicar a alunos e categorizados docentes coisas "singelas", como ver nascer o sol por detrás da Igreja de S. Francisco, em Évora, comer uma bifana no Mercado, ou ver as Ruas de Évora (e a Cidade) a amanhecer, sem gente, mas a cheirar a lavado, deixo-vos com a entrevista que dei ao Jornal UEONLINE, como fundador da dita Associação.
Para memória futura de alguem que não se arrepende dos caminhos que faz.
E paga as consequências...

"PERGUNTAS
1) Em que ano entrou para a Universidade ?
O então Instituto Universitário de Évora (IUE) havia sido criado em 1973, mas, de facto, a actividade lectiva só se iniciaria em 1976/77.
Entretanto, eu e os cerca de 30 alunos que formaram as turmas de Economia e Sociologia, nesse ano lectivo, tinham transitado da Escola Superior de Estudos Económicos e Sociais “Bento de Jesus Caraça”, que existia em Évora, desde 1974, mas cujos alunos foram, após anunciada a sua progressiva extinção, integrados no então IUE, no 2º ano dos citados cursos.
Portanto, entrei para o Ensino Superior em 1975 (Setembro), mas tornei-me aluno da hoje Universidade, em Dezembro de 1976, ingressando, com mais 12 alunos, na Licenciatura em Sociologia, 2º ano, curso diurno.
2) Como era a Universidade desses tempos ?
Em Outubro de 1976, o então IUE tinha dois edifícios (a “Mitra” e um “corredor no Colégio do Espírito Santo – o restante edifício ainda era do Liceu de Évora). Teria , nesse seu início de vida lectiva, cerca de 50 alunos, dos quais mais de metade eram os tais “transferidos” da tal Escola Bento Caraça. “Economia” e “Sociologia” eram os dominantes com turmas diurnas e noturnas.
Não havia residências universitárias, muito menos refeitório (só aconteceu em 1979, julgo) e havia um minúsculo bar, aberto, esse sim, logo em início de 1977. Os nossos “luxos” eram a Reprografia e a Biblioteca.
Havia mais docentes e investigadores do que alunos. Não podemos esquecer que o então IUE acolheu inúmeros professores das Universidades de Angola e Moçambique, que entretanto se tinham tornado países independentes, assim como alguns (seleccionados…) professores da tal Escola Bento Caraça, mormente os ligados á Companhia de Jesus (jesuítas).
3) Como surgiu a ideia de criar a Associação de Estudantes ?
É uma história “épica”, que recordo com orgulho e emoção. Vivíamos tempo de afirmação do regime democrático (o “25 de Abril” tinha sido há menos de 4 anos…) e, a par das clivagens naturais (mais ideológicas que partidárias), havia m grande desejo de participar e confrontar ideias. Recordo, as clivagens eram sobretudo deológicas, ou seja, de visão do Mundo e da Vida.
Os alunos da Universidade de etão, tinham, de acordo com o regulamento da mesma, uma forma de participação a vida académica, através dos Delegados e Turma e de Curso, eleitos pelos alunos respectivos, que articipavam nas Comissões Pedagógicas de Curso, órgãos consultivos onde também inham assento os docentes.
Numa Escola Superior onde faltava aquilo que hoje é básico (refeitório, residências, apoio social em geral), sses temas foram, por diversas vezes, debatidos pelos ditos Delegados de Turma ou Curso. Muitos de nós (apesar de repito, haver poucos alunos), não nos conhecíamos e foi nesse ambiente de “Delegados” que foram surgindo “conversas” sobre a necessidade de termos uma Associação de Estudantes. Estaríamos em Outubro de 1977, se bem me recordo.
Foram feitas algumas iniciativas de “sensibilização”, como uma famosa “açorda”, servida por nós nos corredores do Colégio do Espírito Santo.
Num tempo de aprendizagem da Democracia, e ainda bem, tínhamos grandes preocupações em que as ideias saíssem das bases, ou seja, dos alunos. Aí os tais Delegados, até porque eleitos pelos alunos, sentiam-se com legitimidade para avançar na criação da Associação. Eu era um desses Delegados.
Assim, numa reunião para a qual foram convidados todos os Delegados, os presentes decidem convocar uma Reunião Geral de Alunos que, ao que me recordo, teve sessão inicial em Novembro de 1977. A ordem de trabalho era simples e concisa : analisar a situação social e académica dos alunos e decidir sobre como se organizarem. Eu, o João Pires, o Telmo Morna e a Olívia Ramos(julgo não estar a errar), fomos eleitos para ser a Mesa da RGA e eu para presidir aos trabalhos. A RGA foi longa, tendo várias sessões em vários dias.
4- Como foi o processo de implementação ?
Foi rápido e participado. Da dita RGA saiu uma decisão histórica : criar uma Associação de Estudantes. Mas, se havia que definir os objectivos, a missão e a vocação da futura Associação, os alunos deveriam, se bem o entendessem, apresentar projectos de estatutos, a serem votados em escrutínio secreto, e o projecto de estatutos vencedor seria aquele que seria objecto da escritura de constituição. Feita a escritura, então convocar-se-iam eleições para os corpos
sociais.
Eu, como moderador da dita Mesa da RGA “permanente”, fiquei encarregado de conduzir o processo.
Foram apresentados dois projectos de estatutos. A clivagem era evidente : um deles, em cuja redacção participei, era defendido por um abrangente leque de gente de “esquerda”, desde os próximos do PS até á então UDP, passando por pessoas como eu, da esquerda ligada aos meios católicos. Aqui “reinavam” os alunos de Sociologia e Economia. Apesar de ideologicamente conotados, só 2 tinham filiação partidária. O outro projecto era classificado, por nós, como o dos “conservadores”, que reunia claras simpatias junto da Reitoria, por ser tido como mais “moderado”.
O projecto vencedor foi o tido como o da “esquerda”, numa votação extremamente participada, precedida de vários e acesos debates, no seio da tal RGA “permanente”.
Fizemos a escritura em 23 de Maio de 1978.
Tenho orgulho de constar como um dos outorgantes.
5 – A Reitoria da altura apadrinhou e apoiou ?
Eram tempos diferentes.
O Reitor Ário Lobo de Azevedo encarou a derrota do projecto de estatutos defendido pelos ditos “conservadores” quase como uma ofensa pessoal. Quando, logo após a escritura, são feitas as primeiras eleições para os corpos sociais, esse grupo nem se candidata.
O “incómodo” da Reitoria era evidente e caricato : nos documentos oficiais da Universidade (Notas de Imprensa, etc), as nossas iniciativas eram difundidas como sendo de “um grupo de Alunos” e, nunca, da Associação de Estudantes. Chegou-se ao ponto de nos ter sido cedida uma Casa, na Rua de Machede (que foi a primeira Sede da associação), pela Reitoria, e no documento de cedência constavam os nomes de cada um de nós, como os “comodatários” e não o da Associação…
“Last but not de least”, os serviços jurídicos da Universidade solicitaram, ao Ministério Público, a extinção da Associação, por inconstitucionalidade dos estatutos! Por isso, em 29 de Janeiro de 1979, tivemos de fazer nova escritura, corrigindo a versão inicial dos Estatutos. Só a partir daí deixámos de ser um “grupo de alunos”.
Portanto, as relações foram sendo sempre tensas.
Éramos tolerados, mas activos e criativos.
7. Como Presidente da Associação, quais foram os primeiros projectos ?
Eu presidi á tal Mesa de RGA de onde saiu a criação da Associação.
Optámos, logo que foram eleitos os corpos sociais, por manter um funcionamento quase que em “plenário de órgãos sociais” : não havia um Presidente, mas uma direcção colectiva mas com responsabilidades divididas; havia um “Núcleo duro”, do qual eu participava, que tinha sempre 3 pessoas, no mínimo, que garantia as funções que estatutariamente cabiam ao Presidente, Vice-Presidente e Tesoureiro : era o António Brito e eu, cujas assinaturas obrigavam juridicamente a Associação, e conforme os assuntos e temas, juntava-se a Margarida Fortio, o Gazimba Simão, o João Barradas, o Mira Nunes, o Xico Sabino, entre outros que me recordo. Enfim, havia uma espécie de “troika” permanente, de composição variada, mas onde eu e o Brito tínhamos de estar, sempre.
Atendendo a que eu tinha fama de conciliador e era tido como pessoa moderada, no seio da Universidade, tornou-se hábito ser eu a ter as relações institucionais e representativas, internas e externas, mais “delicadas”. Daí, quer eu quer o Brito, termos fama de ter sido Presidentes, nome que, como era norma “progressista” da época, nunca nenhum de nós usou. A não ser por obrigação jurídica. Fui, por isso, digamos, um Presidente só por obrigação jurídica e estatutária, no 1º mandato.
Retomando a resposta, os nossos projectos iniciais, no primeiro mandato em que participei, o da fundação, tinham a ver com dar dignidade aos alunos e ao ensino.
Significou dar vida á Universidade, aproximá-la da Cidade, através de iniciativas culturais abrangentes; significou, numa Universidade sem refeitório e com um bar diminuto, termos, na nossa Sede, um Bar, onde até refeições chegaram a ser confeccionadas; chegamos a ter uma livraria e papelaria a funcionar na sede; depois, bater-nos pela qualidade do ensino, num tempo onde alguns cursos mais pareciam um “asilo” de docentes a aguardar a reforma…; sobretudo, como dizíamos, tornar a Universidade “habitável”, ou seja, promover espaços de convívio, encontro, reflexão, para que os alunos sentissem que a Universidade era sua.
Recordo coisas concretas como a Revista “Semente”, os Ciclos de Conferências sobre os temas quentes da época, os torneios desportivos, as recepções aos novos alunos, mas, sobretudo, o ambiente da Sede, verdadeiro refúgio e aconchego para todos nós, numa Universidade que tardava a perceber que os alunos eram a sua razão de existir.
8 – Quanto tempo esteve na Associação de Estudantes ?
Fiz dois mandatos, ou seja, desde a sua criação (Maio de 1978) até que, em Julho de 1980, me licenciei e, logo, deixei de poder ser eleito e ser sócio.
9 – Qual a maior recordação que guarda desses tempo de dirigente associativo ?
Guardo o prazer de ter aprendido como funciona a democracia participada e ter-me tornado adepto dela : eu era um católico (hoje já não sou) de esquerda (hoje ainda sou), sem filiação partidária, mas que se teve de habituar a conviver com todas as “tribos progressistas” da época, desde a esquerda mais radical, á mais social-democrata; aprendi a ser mediador, a construir consensos, mas a ser radical nas causas e convicções. Aprendi a respeitar a diferença, sem prescindir da minha maneira de estar. Aprendi que, no campo das convicções, é bom dormir com a consciência tranquila, mesmo se acordamos sabendo que perdemos algo (ou tudo).
Se tivesse de destacar um facto, recordaria que essa minha faceta conciliadora me fez ser sempre “indigitado”para escrever (e dizer) os discursos para os atos públicos onde íamos e, sobretudo, um episódio onde , numa sessão solene comemorativa do aniversário da Universidade, interpelei o Presidente da República, Ramalho Eanes, sobre porque estava a pactuar com uma cerimónia onde os representantes dos alunos não tinham lugar na mesa….
É evidente que paguei vários preços por tudo isso.
Toda a gente me augurava uma carreira brilhante na Universidade de Évora (fui um dos 3 primerios licenciados do meu Curso e o melhor aluno…), mas quem tinha o poder nunca me “perdoou” que eu, que até era “bom rapaz”, agisse como um “perigoso esquerdista”. E, sobretudo, que não mostrasse o mínimo de arrependimento…
A AE foi uma escola para muitos.
Recordo que desses tempos da Associação, saíram pessoas como o Pinto Sá (hoje Presidente da Câmara de Montemor), o Zé Carlos Zorrinho (que tem tido vários cargos governativos), entre outros.
9 – Que diferenças no Ensino Superior da altura e o atual ?
Hoje o ensino superior tem uma estrutura organizativa, científica e pedagógica totalmente diversa.
Eu tive 5 anos de licenciatura e só 6 anos depois fiz um Mestrado…; sou adepto do chamado “processo de Bolonha”. Desde que não se fique só pela forma, mas que se entenda a sua filosofia.
Na altura, encontrar saídas profissionais, não sendo fácil, era a consequência imediata de se ser “Dr” ou “Engenheiro”, que mais não fosse a dar aulas no ensino básico e secundário, Esta visão da Universidade como um sítio onde se encontrava a “enxada”, tende a ser substituída com o encarar da Escola Superior como um local de produção e difusão de conhecimento.
O que me agrada, embora tenha deixado a carreira docente á quase 10 anos.
O movimento associativo também espelha o tempo actual, de mudanças.
Uma Associação de Estudantes deixou de ser, em exclusivo, o “sindicato dos estudantes” , para ser um parceiro natural de todos os actores da comunidade académica, nas discussões e acções.
10- Lembra-se da primeira Queima das Fitas ?
Começo por uma “declaração de interesses” : sou contra as praxes e critico vários aspectos das chamadas tradições académicas vigentes.
Contudo, vejo as atuais “Queimas das Fitas” como uma semana de festa, perfeitamente compreensível , defensável e, até, saudável (pesem as “tradicionais e imponentes bebedeiras”, que , no meu tempo, também se apanhavam, mesmo sem “Queima”).
Combati, activamente, julgo que em Junho de 1980, uma tentativa de se fazer a primeira “bênção das pastas” e “queima das fitas”, na Universidade, patrocinada pela Reitoria e por um (aí sim !)“grupo de alunos”, que então nos contestavam.
Fui um daqueles que, para contrastar com aqueles que vestiam a “farda de estudante”, fui á cerimónia envolto num lençol branco. Isto porque era um tempo onde o ressuscitar da dita tradição tinha um cunho claramente conservador e revanchista.
Portanto, não participei, de forma “politicamente correcta” na primeira “Queima das Fitas”, a não ser desse modo contestatário.
Hoje, ainda não me arrependi.

Termino saudando os Corpos Sociais da Academia que ajudei a fundar.
É o maior orgulho da minha vida tê-lo feito.
Há quase 35 anos…
Honra aos fundadores que já cá não estão : o Brito e o Pires, e outros, talvez"



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Porque somos presença necessária, participação indispensável

Encontrei este magnífico poema de Sofia Mello Breyner Andersen, que me confortou hoje e que aconselho a todos os que, num momento, sentem vontade de desistir de resistir :

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.



Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.



Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.



Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Vou continuar viver assim, prometo !

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Crónica universal : TINTIN VOLTOU




Li, em francês, as aventuras de Tintim, em álbuns que algum dos meus irmãos terá a seu cargo, comprados pelo meu Pai, naquele esforço humanístico, continuado com o "Axterix", de aprendermos francês.
Comprei, numa das minhas idas a Bruxelas, o famoso primeiro álbum, até em versão portuguesa, "TinTim no país dos sovietes". Tremendamente reaccionário, claro.
Já conhecia, da infância, a "Ilha Negra", "Tintin no Tibete", "O Segredo da Licorne", "Tintin no Congo", "TinTIn na América"etc, foram obras da minha infância.
Daí que, na vida actual, encontre muitos "Dupont e Dupont", muitas Castafiore, muitos magníficos Capitão Haddock. E outros, que cada aventura revelava sempre com a assinatura de Hergé (ou melhor, RG).
TinTim voltou, com Spielberg, em 3D.
Vi os velhos filmes dos anos 60, no Cinema, ou a velha série que o Canal 2 foi passando, recentemente, a preto e branco. Tal como fez com o mais difícil Corto Maltese.
Ver (E VOU VER) TinTim de novo, no Cinema e em 3 D significa que, no mundo, ainda há lugar para um jovem repórter que acredita que o Mundo se muda; acolitado por tudo o que é mais desaconselhável, ou seja, pelo ébrio Capitão Haddock, pelos detectives falhados Dupond e Dupond, pelo cientista louco louco Professor Tornesol, pela balsaquiana diva e "sex symbol" frustrada, Castafiore.
É que, afnal, é com todos esses "vencidos da vida", que o novo Mundo surge. Desde que haja um TinTim que os anime e congregue.
Felizmente, começou a chover aqui onde vivo. E, por isso, vesti a minha gabardina tipo TinTim,; coloquei a minha boina, velha de 27 anos, como ele usava nos primeiros álbuns. Calças de golfe é que não uso e também não me faço acompanhar por canídeos. E para o penteado, já não há cabelo...; a minha luta é como a do TinTim, com os deserdados da vida a meu lado.
Ainda há Heróis, não violentos, que nos fazem acreditar na bondade do Mundo, construído com estes.
Eu preciso disso, hoje.
Por isso, logo que possa lá irei ver o TinTim. No Cinema e em 3D!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Crónica de Avis (VI) : Quando temos a morte na Alma


Ontem, "fui ao tapete".
Curiosamente, não porque bebi demasiado. Quem me dera !
Senti, sim, o poder do "mando" de quem diz que não e se refugia em argumentos vazios.

Daqueles que se esquecem de quem, com eles negociou algo.
De coisas que, em Janeiro de 2012, finais do mês, lhes servirá e permitirá um ganho "limpo" (ou seja, uma imputação/ um financiamento) de mais de 22 mil euros de salários, e agora dizem que que por as mesmas razões financeiras, não vão buscar financiamentos iguais, para os anos seguintes. Coisas de "amanuenses" a quem deram poder, que o encaram como nos "tempos sociais" do Estado Novo.

É triste : estou a falar de uma poderossíma IPSS de âmbito Diocesano. De raiz cristã.
Aqui entram outras histórias muito antigas como :
- De quem ia a colóquios, congressos e seminários , esperando saber como obter financiamento para um simples fogão, mas que agora já vê um pouco mais alem;
- De quem devia ter orgulho de em 2010/2011, ter dado formação a mais e 350 pessoas ( algumas de IPSS); que hoje se esqueceu disso e que diz que, por razoes financeiras, não o torna a fazer, mas nunca, de facto, teve orgulho no fazer DISSO.
- Tenho de esclarecer : estamos perante uma Entidade que garantiu mais de 11 115 horas de formação, perante públicos altamente desfavorecidos e com sucesso, por exemplo, num Concelho, como Avis, onde algumas coisas tinham de acontecer (e, por via da formação, aí vem um Banco de Voluntariado e uma Universidade Sénior).
Estamos perante uma entidade que, actuou no Alentejo ( Distritos de Évora e Portalegre), em sítios onde NINGUÉM ia fazer formação para a cidadania e vida comunitária, ou seja, os meios mais recônditos (Ciborro, Boa-Fé, Giesteira, Azaruja, Avis, Ervedal, Fronteira).

Que aceitou o "namoro" de uma grande entidade formadora que depois, "roeu a corda".

Mas sobreviveu. Aí teve coragem.

Hoje faltou-lhe isso, mesmo com "cadastro limpo"
E por isso , dizem que não se candidatam a mais a co-financiamentos para formação. Ou seja, a intervenção capacitadora para uma presença cidadã ou para uma acção social com mais qualidade, EMBORA COM FINANCIAMENTOS DISPONÍVEIS, não vai acontecer porque o "amanuense" que tem o "mando" disse que não quer. Isso mesmo, não se candidatam a mais. Podendo fazê-lo e, assim, servir as populações, mormente os últimos dos últimos, aqueles que ninguém "forma". Passos Coelho, afinal, tem seguidores, na saloia sanha contra a despesa...
Mas afinal, tudo isso pode morrer. Por decisão que quem faz contas ao "Clips", ao "papo seco", ao "cu" limpo ao idoso, mas não percebe que existe algo mais : fazer das gentes pessoas.

Fica a "caridadezinha". Consentânea com o Governo "pacóvio" que temos.

Hoje, eu pago o preço de ter sido protagonista da aventura onde quis dizer o contrário. E parecia que estavam a gostar. Até que veio o MEDO !

A dita Instituição acha, como disse, que não quer continuar. Fica na mesma, não arrisca. Logo, não precisa de mim.

Deixa, "orfãos" formandos em Ciborro, Boa-Fé, Giesteira, Azaruja, Fronteira, Avis, Ervedal, que, de tão habituados a ter as nossas sessões quase quotidianas, vão estranhar ela já não acontecer.
Deixa a falar sozinhos os promotores da Universidade Senior de Avis ou do seu Banco de Voluntariado.

Mas mostra estar á altura de quem governa o País: TEM MEDO DE ACREDITAR QUE HÁ MAIS VIDA, PARA ALEM DO ORÇAMENTO:

Hoje, essa Instituição (ou o "amanuense" feito decisor), não quer mais.
Percebo. Ele não percebe de tal.que eu percebo o seu MEDO.

Nem o PS conseguiu criar um sistema credível de financiamento para a ECONOMIA SOCIAL, por oposição dos actuais governantes. Não seria eu a confessos "amanuenses"
Resta saber o que sobra do Estado Social, perante acto destes, Pior, o que restará de um discurso dominante "caritativo" sobre o mesmo. Que, neste exemplo, saiu vitorioso.

Como aquele que eu hoje vivi, na minha pele: "Foste bom, vai-te embora e cura-te" (mas isto disse Stº Agostinho há quase mil anos).

Fico por aqui, pois a dor é muita. Estou farto de ir embora e "curar-me".

Aliás, sinto que estou a perder a última grande aposta da minha vida. Por culpa de "gente com medo", não com "responsabilidade".
Por isso, fiz a escolha definitiva de, enquanto tiver alma e vontade de lutar e enquanto sentir que aquela população me estima, continuarei o trabalho social em Avis. Mesmo que só como voluntário.
Nenhum iluminado "amanuense" feito "mandador" mata este trabalho.







sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Crónica, de várias áreas geográficas, sobre a centenária República



A minha alma é demasiado parva.
Ainda me admiro com muitas coisas.
Ouvi, a 20 de Setembro, num sítio sério (um Tribunal), um autarca (a letra pequena não é erro, é opinião) Presidente de Câmara, que está no seu terceiro mandato (após um onde não foi eleito), dizer, nesse sítio respeitável, onde a Lei Fundamental e as dela emanadas valem, que, de facto, existem duas situações distintas, antes e após eleições autárquicas : até ao anúncio dos resultados, os candidatos "foram lá" por Partidos, Coligações ou Listas de Independentes. Depois, passam a ser eleitos do Município, logo, podem, esquecer os Programas pelos quais se candidataram e foram votados, e qual Estado Novo revisitado, mandar para "as urtigas" o Programa que subscreveram. E, por si mesmos, "casar" com outro Programa, "á beira do altar" !
Fiquei, nesse dia 20 de Setembro, admirado. Atónito. Estava a ouvir um Presidente de Câmara, no seu 3º mandato.
Mas logo perdi a dúvida.
Alberto João Jardim (eleito há 36 anos, sem interupções) declara, em 28 de Setembro, que "O seu Partido é a Madeira e o PSD é um seu instrumento." Repito, um seu instrumento ! Não há Programas, projectos políticos, mas, sim, um poder pessoal. Se o intrumento não fosse o PSD, seria outro ! Há, sim, um projecto de poder pessoal que, por razões "instrumentais", precisa de um Partido, o PSD.
Não gosto de Alberto João, mas ele, pelo menos, é sincero.
O Autarca, que, em 20 de Setembro, disse, perante um Tribunal da nossa República, a enormidade que disse, se o foi, só demonstrou o mesmo, numa versão menos corajosa : estar num registo constitucional que ainda não existe.
Não tem a coragem do madeirense : não diz que sempre viu na lei eleitoral um "instrumento".
Mas, tal como o madeirense, ganha eleições e tem os eleitores que merece e que o merecem.
Manuel de Arriaga, o Açoriano que presdiu ao primeiro governo republicano, bem disse, quando se desiludiu com o novo regime: "Vamos ter uma República sem republicanos, mas com beatos, sacristãos, bons chefes de família bem pecadores, habituais dos lupanares, das sociedades secretas, das mais soturnas sacristias, mas de uma seriedade impoluta. Logo que, quando nasce o Sol, vão dizer que são eles a República na sua pureza!".
100 anos depois, apesar disto tudo, sou Republicano, Socialista e amante (mas só dela, como ideia) da Cidadania.
E, infelizmente, estou a pagar por isso, á mão dos estúlticos que Arriaga enumerou...
E com muita honra.
Porque vivi na "terra" de Manuel de Arriaga, durante váios anos, transcrevo um exemplo da sua desilusão, relatado pelo escritor Augusto de Castro :
Augusto de Castro relata uma conversa com o ex-presidente Manuel de Arriaga pouco antes de este morrer, em 1917: "O velho, de admirável cabeleira de tribuno, de porte aristocrático e olhar romântico, que fora outrora um dos mais lindos rapazes do seu tempo, transformara-se em meia dúzia de meses, num velhinho curvado e triste (...) Arriaga contou-me os únicos prazeres do seu exílio - as flores, as suas telas, os seus poetas (...) Naquela tarde, sentado nessa saletazita que um raio de sol aquecia, contei ao pobre velho as minhas fáceis previsões. A política não fora feita para os idealistas e para os poetas, como ele - acrescentei. Arriaga escutou-me em silêncio, forçando um sorriso de comprazimento. Uma névoa de lágrimas velou-lhe o olhar. E como falando para si desenhando com a bengala no tapete pequenos traços trémulos, disse-me, com uma ironia em que procurou pôr altivez, mas em que apenas havia o fel de uma mágoa intraduzível: "Sou um criminoso político, meu amigo..." Quis consolá-lo e, para o fazer, lembrei-me de lisonjear o sentimento de popularidade e de justiça, que eu sabia ser a nota mais viva da sua velha alma de tribuno. "O povo que o estimou, continua, a despeito de tudo a amá-lo. Esteja certo disso. Ainda há pouco num teatro, o público, ao vê-lo caricaturado em cena, aliás sem o menor intuito desprimoroso, se levantou, numa manifestação de protesto e simpatia ao seu nome." E Augusto de Castro termina contando que, à saída de casa do primeiro Presidente da primeira República portuguesa, depois de comprar o jornal e ler que alguém se referia a Arriaga como "renegado e traidor", pensou: "Nunca, como nessa tarde, a política me pareceu uma tão cruel e sinistra coisa" (citado por João Medina, "História Contemporânea de Portugal", p. 257 e 258).

É com este tipo de Homem que a Rpública tem de ser feita. Não com os outros exemplos de pessoas que dei...

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Requiem pelo "Magalhães" e outras notas






Um Governo que, no ridículo das suas posições, faz apetecer gritar "Volta, Santana Lopes, eras um Santo !", voltou a tomar uma das sua "estruturantes medidas", afectando, claro, os mais desprovidos do acesso a determinados bens, hoje essenciais á inclusão social.
Falo do computador "Magalhães".
Para começar, vai ser extinta a Fundação Magalhães, precisamente vocacionada para a universalização do acesso ás TIC. O programa "@escolas e @escolinhas vais ser reavaliado, tal como está a acontecer ao "Novas oportunidades".
A sanha de destruir tudo o que ficou dos governos anteriores é indignante.
Um emigrante, desconhecedor da vida real em Portugal, muito qualificado, o Ministro da Economia, na 2ª feira, na RTP, anunciava uma medida verdadeiramente "estruturante" de combate ao desemprego : colocar os desempregados de longa duração, em formação, nas empresas, em troca de um IAS por mês, durante 9 meses (ou seja, menos de 500 € por mês); o emigrante Ministro deve pensar que ainda está nos "States" ou Canadá, onde há alguma seriedade nestas medidas, por parte dos empresários: então se as empresas NEM DÃO ACESSO, AOS SEUS TRABALHADORES, ás horas que a actual Lei fixa como obrigatórias, para sua formação, vão fazê-lo com outros? Só quem não conhece Portugal e o nosso sentido empresarial "manhoso", não vê que isso vai significar 9 meses de mão-de-obra barata, com "zero horas" reais de formação ou seja, o aumento da vergonha da formação fictícia e o continuar do descrédito da formação.

Mas volto ao "Magalhães".
Sempre foi odiado, talvez por ser interclassista. Foi ridicularizado. Talvez porque fazia chegar, a todos, aquilo que, em muitas escolas, fazia a diferença : ter um computador; e isso devia, talvez, numa visão muito liberal, ser exclusivo só de quem podia comprar. Afinal, é um critério de selecção dentro da sagrada competitividade : ter dinheiro para, ter acesso fácil a, etc...

Retenho, do "Magalhães", 3 imagens que demonstram o seu valor social :
- em 2009, primeiro ano do "Magalhães", estava eu, num banco de uma Praça, em Portimão, a escrever no meu Magalhães; passou uma criança, com a Mãe, e diz, para esta : "Mãe, aquele senhor tem um computador igual ao meu! Mas ele também é para velhos ?"; sem comentários...
- numa rua de Avis, durante o Verão deste ano, uma criança, talvez de 8 anos, acompanha os Pais, que se ocupam da limpeza urbana; a escola fechou, o ATL também, e ele lá anda com os pais; mas de "Magalhães" a tiracolo, parando, de vez em quando, em Cafés onde, simpáticamente, o deixam carregar um pouco a bateria ou permanecer;
- neste ano de 2011, há dias, numa acção de formação de informática básica, para pessoas iletradas informáticas e com problemas de acesso, por tal, ao mercado de emprego, realizada no Alentejo, em Avis, para alem dos computadores existentes, na Sala, demos possibilidade aos formandos trazerem, se tivessem, computadores ; formandos com mais de 40 anos, seguramente, apareceram com os "Magalhães"; disseram que os tinham pedido emprestados aos filhos ou netos. Ou seja, naquelas casas havia um computador, o "amaldiçoado" Magalhães. Mas se o Magalhães não existisse, não tivesse sido disponibilizado como foi, não haveria nenhum...

Exacto. De facto, o "Magalhães" não serviu para nada !!!!

Em definitivo, este País deixa, a "Passos" largos, de ter lugar para políticas sociais. Para os filhos das crises, restará o assistencialismo; e aí não existe espaço para coisas "igualitárias", tipo Magalhães!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

Dejá vu







Há pouco tempo, vi, na TV, uma série explendida, chamada "Os Pilares da Terra"; li, depois, o livro que, como quase sempre, acaba por ser mais rico que a sua versão em imagem.


Recordei-me, há dias, da parte da obra onde se descreve a condenação de um suposto "bruxo", em Tribunal, presidido por o representante máximo da Igreja naquele território.


O Senhor daquelas terras, também ele clérigo, era o denunciante dos supostos actos de bruxaria do acusado. Apresentou várias testemunhas, que confirmaram tudo o que o Senhor dizia.


Por sinal, todas as testemunhas eram servos desse Senhor, explorando, em regime feudal, as terras.


Num acesso de fúria, a mulher do condenado dirige-se a vários deles, acusando-os de estarem a mentir, embora tivessem, perante Deus, jurado dizer a verdade. Eles limitaram-se a replicar-lhe uma coisa do género "O que querias que fizéssemos ? Que ficassemos sem as nossas terras ?".


Antes que me esqueça : isto passou-se no século XII.














segunda-feira, 12 de setembro de 2011

O "meu" Partido Socialista (1)





Confesso.

Estive, no Congresso de Espinho, em 2009.

No Congresso de Matosinhos, em 2011.

No Congresso de Braga, neste fim de semana.

Estive, sempre, como militante, e, por razões da minha (de)formação académica, pude ver o Partido em movimento.

Aprendi muito.

E, conscientizei (como dizia Paulo Freire), muito.


Aprendi que estou no Partido certo que corresponde aquilo que eu defini como a Esquerda Possível. Precisamente, aquela que pode propor alternativas VIÁVEIS ao que a "esquerda museológica" ou a "esquerda caviar" propõem (e, reparem, eu militei nas duas, sei do que falo).

Descobri, em Braga, que o "meu PS" é o daqueles que percebem e se revêem nesta minha "esquerda possível" e que encontrei, lá, sem os procurar : o Dionísio Mendes, Presidente da Câmara de Coruche, meu colega de liceu, que saiu do PCP e abraçou o PS como esquerda possível; o António Marcelino, velho Amigo, de Arruda dos Vinhos, que me viu ser técnico da Câmara de Arruda e, depois, Autarca, com Pelouros, da CDU, num Município onde ele estava, na Assembleia Municipal, pelo PS; o Casimiro Ramos, também, nesse tempo, de 1993/1996, opositor político, mas, como o Marcelino, colaborador nos Grupos Municipais que fizeram o Regulamento de Apoio ao Associativismo, as Jornadas de Desenvolvimento do Concelho, o Grupo de trabalho dos Fundos Comunitários. Finalmente, o meu "inimigo íntimo", o então Presidente da CM de Arruda dos Vinhos, Mário Henrique Carvalho, (pelo PS) ,que, nesse tempo entre 1993/1997, me "aturou como Vereador da Oposição CDU, perante a sua maioria PS. Recordo, findo o meu mandato, que o Mário foi ao meu segundo casamento, em Beja, em 1997; ser adversário não é ser inimigo.

O Mário Henrique Carvalho é alguém, porque o ataquei, combati, porque ele me atacou e combateu, com uma imensa lealdade, perante quem, fico, como aconteceu em Braga, sem palavras. É foi um exemplo de Autarca e, ainda é, de Cidadão.Homem simples (embora, como estudante-trabalhador, e já em idade madura, se tenha licenciado em auditoria financeira), nunca o vi querer ser tratado por Doutor. Mas de um imenso sentido de justiça. Um dia tratámos-nos mal, na nossa vereação comum; acabada a Sessão de Câmara onde tal aconteceu, eu fui beber um copo, sozinho, como sempre fazia, ao "Nicol", um café do Centro de Arruda; bebi e saí. A sair da Câmara, vinha o Presidente Mário e disse, do alto da sua sabedoria humana : "Abel, ambos excedemos-nos"; eu reconheci e nem foi preciso pedir desculpas. Acabámos a comer "Frango à passarinho", no famoso "FUSO", logo ali em frente, junto com o Vereador Zé Maria, de Arranho, e o hoje Presidente, o então Vereador Carlos Lourenço, do PSD.


É este o "meu" Partido Socialista, que revejo nestes Camaradas, contra quem combati, mas que hoje , neste tempo onde a Esquerda é a possível, gosto de sentir, como um "aconchego" de uma vida longa de combates, onde, finalmente nos encontramos. Num território político comum, determinante para o País.

Abracei o Mário Henrique, no Congresso de Braga (não lhe o disse por pudor), como quem agradece a quem de algum modo, como a todos os outros que referi, sem o saber, contribuiram para, de forma determinante, pelo exemplo, de militância, mas, sobretudo de cidadania, me trazerem a este "meu" PS de hoje : o da ESQUERDA POSSÍVEL.






sábado, 3 de setembro de 2011

Crónica do Marco(V) e, ao mesmo tempo, Crónica de Avis (VI): maneiras diferentes de estar no trabalho social...



Juntei duas crónicas num só texto, pois a questão é transversal.
Recordo o carácter quase de"Diário pessoal" que este blog tem. Que contudo partilho com quem quer ler. E desabafo aqui.
Adiante.
Ontem fui a um dos confins da Diocese de Évora, a Fronteira, pequeno Concelho do Distrito de Portalegre. Porque a divisão administrativa não coincide com a eclesiástica, Fronteira, tal como Avis, estão na alçada daqueles para quem trabalho : a Cáritas de Évora e uma Fundação, canonicamente erecta (este termo é curioso), com sede em Avis.
Fui reunir com a Misericórdia local, para organizarmos formação para os seus profissionais e voluntários, como temos vindo a fazer, um pouco por toda a Diocese. Com uma particularidade: privilegiamos fazê-la em locais ou gente que, sistematicamente, por serem demasiado do interior, escapam ao interesse das grandes empresas de formação. Nomes como Boa-Fé, Giesteira, Ciborro, Azaruja, Ervedal, Fronteira, Galveias, Aldeia Velha, Alcôrrego, nada têm a ver com grandes centros, atrativos para quem tem os "pronto a vestir" da formação.
Mais uma vez, os dirigentes dessa Misericórdia, após acordarmos o tipo de formação a realizar, fizeram a clássica pergunta : "E a Cáritas e a Fundação, em troca querem o quê ? ". Tive de responder, como sempre, "Nada, só que nos abram a porta e nos ajudem a fazer o trabalho que esperam".
Voltei a Avis, ao meu "ermitério", como lhe chamo, e tive, uma vez mais, aquele doce sabor de estar, como dizia S. Paulo, a "combater o bom combate" e a contribuir, parafraseando Abrunhosa, para "fazer aquilo que ainda não foi feito".
Não se pense, contudo que as instituições que me enquadram neste trabalho comungam, totalmente, daquilo que faço. Nem sempre. Mas, depois, até ficam felizes e satisfeitos..; vantagens de ser "free lancer"...; mas não trabalho sozinho, há um mérito colectivo: existe uma relação próxima, familiar, dos formadores com os formandos mais persistentes que, permite, um trabalho conjunto de programação e um ambiente de partilha que, em quase 35 anos de ensino, nunca vivi. E não pedimos aos formadores que nos dêem uma percentagem dos seus honorários, como "donativo forçado"...
Hoje, de manhã, fiz, em Avis, o balanço da preparação de um outro projecto, saído e dirigido, no terreno, precisamente, por um grupo de formandos : criar um Universidade Sénior. O desafio foi feito a todas as forças vivas locais e, em 21 de Maio, quem quis participou numa reunião de reflexão, onde a Câmara participou, de onde saiu um compromisso da Autarquia com a Cáritas/Fundação e um plano imediato de trabalho. Concluí, hoje, que, numa área geográfica com pouco menos de 8 mil almas, há 87 inscrições na Universidade Sénior...; curiosamente, uma das disciplinas, que não constava da ficha de inscrição, mas foi sugerida por várias pessoas, será (o nome já é nosso) "Animação e guarda de crianças". Percebe-se : a instituição "avozinha" ainda funciona e essas avós, desocupadas mas que guardam os netos, querem aprender como o fazer melhor. Confesso a minha emoção quando fiz esta constatação e fiquei feliz por isso : as pessoas acolheram o ideia da Universidade Sénior e não de um modo meramente lúdico, pois querem, até, adquirir conhecimentos para essa nobre "ocupação" de guarda netos, sobrinhos, etc.
Bom, quem me lê dirá : mas isto é em Avis e o que é que tem a ver com o Marco ou a sua região do Tâmega ?

Muito.
Explico:
Há cerca de 2 anos, uma das maiores empresas de formação da zona do Grande Porto, com sede em Rio Tinto, disse publicamente que iria mudar a sua sede para Baião e o cerimonial de assinatura do protocolo que consagra, com a CM de Baião, tal, teve honras de comunicação social.A intenção era melhor servir o Tâmega. Na mesma área opera, na formação, uma Cooperativa de desenvolvimento. Com a mesma intenção. Essa empresa e essa Cooperativa, embora com natureza e fins diferentes, são o rosto de uma mesma atitude perante a formação e agem como tal : pegam no catálogo do "pronto a vestir" da formação já formatada e lá se vende o "fato feito" a instituições ou pessoas, que em troca de poucas centenas de euros, lá aceitam "receber" a formação. Pergunto eu: Com que envolvimento, com que participação, dessas pessoas e instituições, nas decisões de gestão e organização? Com que diagnóstico de necessidades ? Com que preocupação com a inclusão social e cidadã de quem é formado ou das instituições que colaboram ? E será que nas recônditas aldeias, naquelas onde estão os "últimos dos últimos", aqueles que não têm condições pessoais e sociais para ser objecto da formação "profissional", mas, tão somente, da formação "para a vida" ou "para a cidadania", estas duas faces do mesmo "império" fazem alguma coisa ou dão alguma resposta formativa ? Não, formação para a inlusão, apesar de financiada, tem de ser feita à "medida"; dá trabalho e parece não haver "alfaiates", pois é preciso construir planos de estudo próprios, abertos, flexíveis, é os tais "últimos dos últimos são muito trabalhosos !É isso: dá trabalho.
E de pedir a tal percentagem dos honorários como donativos forçados, nem falo !
Enfim, filosofias e metodologias diferentes de trabalhar...

Mudando de assunto, no Marco, o Presidente Manuel Moreira diz que quer fazer uma Universidade Sénior. Até já tem instalações, as que eram do antigo Núcleo de Árbitros do Tâmega, por detrás do "Pingo Doce". Não sei com que suporte, se de uma Associação a criar,uma vez mais saída do seu Gabinete e por si tutelada, ou se será uma iniciativa municipal do inenarrável Gabinete Social da Autarquia, ou mais uma tarefa a distribuir, uma vez mais, a alguma IPSS fiel do "regime" local.
Uma coisa é certa : mais uma vez parece algo construído a partir do "telhado" e sem ter por detrás nenhuma preocupação de participação dos destinatários na sua definição.
Enfim, outra vez, metodologias diferentes de trabalhar...
Para bom entendedor, fico por aqui.

Só uma nota final: onde ando a trabalhar, hoje, o Poder Local sabe que eu não sou da sua cor política e que não me revejo em muitas das suas atitudes. Aqueles com tenho uma relação laboral, são de raiz católica e sabem que eu não sou, hoje, dessa família religiosa. Mas há espaço, porque se valorizam as competências e poderes de cada um, para respeitar estas diferenças e construir projectos comuns, precisamente porque as diferenças enriquecem.
Isso chama-se concertar objectivos. É difícil, por vezes doloroso, significa dar murros na mesa, ás vezes bater, sózinho, nas paredes, falar e dizer, aos outros, olhos nos olhos, coisas complicadas . Noites sem dormir, também, a fazer contas ao pouco que se ganha e ao pouco que se tem para fazer tudo isto.
Nem tudo são rosas. Mas vale a pena !
Porque tentamos (nem todos nem sempre, mas tentamos) estar centrados na causa de servir as populações e quem mais precisa.

O que é diferente de autismo técnico e político.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Crónicas do Marco (IV) - Mais uma modernice de Manuel Moreira : convocar para reuniões através de notificação pela GNR !




Que se cuidem os Vereadores, Deputados Municipais, Autarcas de Freguesia, representantes locais de serviços da Administração Central !
A Câmara de Manel Moreira inaugurou uma nova prática, a convocatória para reuniões, através de notificação pessoal, no respectivo serviço ou residência, mas entregue pela GNR (isso mesmo, a Guarda Nacional Republicana) !!!



Seria anedótico se não fosse gravíssimo!


A história, repito, revoltante e lamentável, aconteceu ente 6ª feira e 2ª feira; omito os nomes dos envolvidos e dos serviços em causa; não porque tenha medo : irei, em breve, responder em Tribunal por algo que escrevi neste blog. Mas quero poupar outros a tais trabalhos.



Então foi assim:
Uma das "seguidoras de Manuel Moreira", com suposta responsabilidades de chefia de serviços, na Câmara do Marco, também coordenadora de um dos muito úteis foruns inter-institucionais (que serviriam para resolver problemas sociais, se não fossem "altares" para as "missas" ou loas a M. Moreira), convoca, uma técnica de um serviço da Administração Central, no Marco, para uma reunião. Esta técnica, convocada sobre a hora (recebe a convocatória de manhã para uma reunião á tarde) informou, por escrito(a dita "seguidora" parece que não recebe telefonemas, pois deve ter "categoria" a mais para tal), não estar disponível, pois tinha atendimentos marcados para utentes do seu serviço, que já não podia desmarcar.
A "seguidora de Manuel Moreira" não faz a coisa por menos : no dia útil seguinte, o piquete da GNR apresenta-se nesse serviço da Administração Central, no Marco, para, por ordem dessa "seguidora (logo, por lógica hierárquica, de Manuel Moreira, senão tal terá sido um abuso, a punir disciplinarmente), notificar a técnica desse serviço para comparecer em nova reunião !
Pasme-se : é verdade documentada !!! E em documento timbrado ! Uma pessoa é convocada para uma reunião, repito, UMA REUNIÃO, através de notificação, no seu serviço, pela GNR!!!
A douta "seguidora de Manuel Moreira" desconhece que existe um forma, talvez arqueológica, chamada "carta registada com aviso de recepção"! Ou outra, talvez tecnicamente demasiado evoluída, chamada "mail com prova de leitura" !
Mais: no uso ou abuso das suas funções, a dita "seguidora de Manuel Moreira" tem a ousadia (e quiçá o abuso) de pedir, por escrito, ao dirigente regional desse serviço da Administração Central que apure e comprove as razões da ausência dessa técnica na reunião !

Inagurou-se uma prática que nem Ferreira Torres se tinha atrevido a (ab)usar : convocar para reuniões através da GNR.

Comentei o facto com responsáveis, noutras Câmaras, do mesmo forum a que a "seguidora de Manuel Moreira" parece presidir, no nosso Concelho : riram-se, como é lógico...; até me disseram para informar os orgãos de comunicação nacionais. Mas fico por este post. Não será por mim que o País saberá que o Marco continua a ser exemplo deste tipo de dislates.
É este o governo local que temos : fomentador de incompetência (veja-se esta "seguidora", já com muitos anos de casa, que preside e coordena tudo o que existe na área social, com os não resultados existentes), prepotente, abusador, desrespeitador da dignidade das pessoas. Repare-se, o piquete da GNR irrompe num serviço para notificar uma técnica; a técnica estava a fazer atendimento numa freguesia, logo não estava lá. Perpassa a dúvida em quem assistiu: vinha ser notificada de quê ???
Mas este modo de governar, localmente, tem um rosto : Manuel Moreira.
Isto porque permite estes dislates e abusos, em papel timbrado ou provenientes de endereços electrónicos de serviços municipais ou aos quais o município preside.
Manuel Moreira está em queda livre e "parte" tudo onde vai batendo, na sua queda.
A não ser que, em definitivo, se demarque deste tipo de actos e tome medidas disciplinares necessárias. E, já agora, peça, no mínimo, desculpa aos abusados.
Guerra Junqueiro escrevia, no século XIX : "É fartar a vilanagem ! Ó Zé [Povinho], pega no lodão e corre com eles á bordoada!".
Hoje há um "lodão" chamado voto.
Que vou usar nas próximas autárquicas, para correr com este tipo de gestão municipal e a sua incompetente e, agora vi, abusadora "entourage".
Senão, com o ódio que existe para com quem pensa, tem ideias, interpela, com legitimidade pessoal e institucional, os "sacros" poderes de Manuel Moreira e seus "seguidores"(como é o caso da técnica agora vilipendidada com esta novel forma de convocatória) , só falta ressuscitar a Inquisição...

quarta-feira, 20 de julho de 2011

Crónicas do Marco (III) - Um eterno, mas sublime, desencanto


Na minha actual "comissão de serviço" no Alentejo, mormente em Avis, tenho, muitas vezes, saudades do Marco. Porque é lá que continuo a viver, onde tenho a minha casa e muitos afectos, alguns construídos desde que comecei a lá ir, em Novembro de 2006.

Não que me faltem causas, valores, objectivos que me preencham, no meu "ermitério" profissinal actual, de Avis: cerca de 70 pessoas, de várias idades e condições, encontraram, em actividades que vulgarmnte têm o substantivo "formação", um novo alento para serem, sobretudo, socialmente activos.
E são ! Vão nascendo, fruto da tal "formação", uma Universidade Sénior, um Banco de Voluntariado, um grupo de teatro amador (com 2 encenações, uma com fantoches, que fará história, aqui), um serviço de guarda de crianças...
E começou-se em Março. Numa instituição de raiz católica que, desde sempre, sabe que eu não posso ser católico. É claro, com uma Câmara que "permite" que isto aconteça, num Município gerido por uma maioria que sabe que eu nem comungo da sua cor política, mas que acolhe, apoia e deixa que façamos o nosso trabalho, que aprecia e, até, elogia.
"I love this game", como era lema da NBA.

Recordo a minha chegada ao Marco; a sobranceria e desprezo com que a Câmara de Manuel Moreira acolheu uma iniciativa de divulgação,em primeira mão, em Novembro de 2007, do QREN e dos seus apoios á acção social : após a sessão de abertura, Manuel Moreira e as suas "seguidoras", talvez por tudo saberem já sobre o tema, foram embora, não assintindo ás comunicações...; detesto quem julga que já sabe tudo , para esconder a sua incompetência !

Mas continuei a gostar do Marco, por isso lá continuo...

O mesmo Manuel Moreira, teve a ousadia de, na minha ausência, fazer insinuações sobre a minha pessoa, em plenário da Rede Social, em Maio de 2008, e convidado a colocá-las em acta, não o fez...; detesto a arrogância dos cobardes !

Mas continuei a gostar do Marco, por isso lá continuo...

O mesmo Manuel Moreira Moreira teve a pouca vergonha de comentar, junto de pessoas com quem colabarei, em dislate muito recente, que "ainda bem que ele se foi embora"...;detesto xenófobos, mesmo que educados!

Mas continuei a gostar do Marco, por isso lá continuo...

Na Regão do Tâmega vivi, também, algo que nunca, com a minha vida e curriculum, alguém me tinha feito : oferecer os meus serviços a uma poderosa associação de desenvolvimento e não ter tido qualquer resposta, nem sequer ter sido convidado para uma entrevista. Perdão! Tive...; mandaram-me um "recado", por terceira pessoa, dizendo que eu tinha competências a mais, que "aquilo" não era bem á minha medida, mas, sobretudo, que eu era muito polémico e Manuel Moreira fazia parte dos Orgãos Sociais...; detesto estatutos de servidão, por mais qualificada que ela seja!

Mas continuei a gostar do Marco, por isso lá continuo...

No Marco, já militante do PS, porque disse o que pensava, fui segundo suplente na lista para a Assembleia Municipal, nas últimas Autárquicas, nas listas do PS, porque, ao que dizem, sabe-se lá porquê, se eu fosse em lugar elegível, outros recusariam integrar as mesmas listas. Enfim, uma "lepra social" de que serei portador....; acontece que disputo eleições desde 1991, sempre em lugares elegíveis. Detesto democracias servis...

Mas continuei a gostar do Marco, por isso lá continuo...

Gosto, pois, do Marco : do café "Jocar" do Senhor Felix, do café Central do Senhor Alberto, do café "Pé de Vento" no Edifício Sonae; no mesmo edifício, do "7 ás 7" do Senhor Camilo;do Estádio e do piso sintético onde jogam as camadas jovens; do clube de patinagem; das salas de cinema, mesmo se vazias; dos taxistas em geral; da Alameda e dos seus cafés; de ver ruas com gente, de ver gente no Modelo, nos "Gémeos Ferreira", de ouvir uma rádio deplorável e de ler um jornal sem linha editorial; sobretudo, gosto do Marco porque é um Concelho pelo qual vale a pena combater pela mudança. E porque escolhi esse combate.

Por isso no Marco continuarei.
Mesmo se sinto um enorme desencanto, mas que, próprio de quem ama algo, se sublima.