sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Sobre a pobreza, neste seu "Ano Europeu"





Respiguei um texto datado (2002) e localizado (Alentejo), mas que, ao voltar a consultá-lo, julgo ser útil ser colocado em comum (academismos à parte...).


CONTRIBUTOS PARA UMA CLARIFICAÇÃO SOBRE AS CARACTERÍSTICAS DA EXCLUSÃO SOCIAL NO DISTRITO DE ÉVORA *
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* Comunicação ao “Encontro de Chefes de Projecto de Luta Contara a Pobreza do Distrito de Évora ”
Abel Maria Simões Ribeiro
Docente do Instituto Superior de Serviço Social de Beja
Coordenador do Núcleo de Évora da REAPN


Resumo
O autor tenta situar as questões da exclusão e do seu combate num domínio simultaneamente subjectivo e objectivo: por um lado, existe uma percepção, perfeitamente mensurável, da exclusão, como o não usufruto de bens ou direitos; por outro, existe uma dimensão subjectiva, que não se situa no “excluído”, mas no discurso que a sociedade faz sobre o seu estatuto, que, por vezes, pode ser deveras relativo no que á realidade objectiva dessa exclusão respeita.
Conclui sobre a colocação das questões da exclusão, na única dicotomia que reconhece: conseguir ser-se (ou não) cidadão.

1. O que é lutar contra a exclusão ?

Há pelo menos 3 décadas que responsáveis pelos poderes, na Europa, assim como nas chamadas organizações da sociedade civil trabalham e lutam, organizados e apoiadas pelos chamados “dinheiros comunitários”, contra a pobreza ou contra a exclusão.
Contudo, se vos perguntar o que é a exclusão, dificilmente encontraremos um conceito consensual: a pobreza é algo que sabemos o que é, quase intuitivamente, mas que dificilmente conceptualizamos; a exclusão, talvez, ainda pior seja. Contudo, há muito (1993) que a própria União Europeia, através do então responsável pelo Programa Pobreza III, o Prof. Pierre Hierneux, adoptou um conceito, fundamental, para a exclusão, que me parece servir para todo e qualquer espaço do Mundo :

“A exclusão consiste na impossibilidade ou incapacidade, de uma pessoa ou grupo social, aceder e usufruir de um nível de vida e qualidade de vida médio do seu grupo social que, simultaneamente, corresponda às suas expectativas enquanto, consumidor, num determinado tempo e cultura global e local”

É um conceito muito operativo, talvez por vir de alguém que, ao mesmo tempo, é do “terreno” e da “ciência”.
Isto porque o centra, precisamente, não nas suas expressões e rostos (insuficiência de rendimentos, desqualificação, destruturação da família...), mas, precisamente, nos mecanismos de sua criação.
Penso ser este o equívoco, benévolo e bem intencionado de muitos dos chamados projectos de luta contra a exclusão/pobreza : lutamos contra as expressões, as consequências do incorrer na exclusão ou pobreza, e não contra os mecanismos que a criam; por isso abrimos infantários e creches, fazemos formação profissional, construímos curriculae escolares adequados a crianças diferentes, até tentamos “estruturar” as famílias. Tudo isto é meritório e útil, mas, sinceramente, não acredito que seja ser anti-pobreza e, muito menos, anti-exclusão; ainda é ser, teimosamente, assistencialista.
Por isso, não situo esta análise ao nível dos números valores ou dados estatísticos.
Julgo preferível tentar, convosco, encontrar pistas para a identificação dos mecanismos criadores da exclusão para, no desempenho profissional meritório que todos nós temos, os podermos, de facto combater. Isso mesmo, atacar os mecanismos...

2. A representação social do excluído no Alentejo
Vamos ser claros: o “excluído”, no discurso dos poderes, no Distrito, entre nós, tem muito pouco a ver com aquilo que Hierneux dizia.

Vejamos, só, um exemplo, que deixo á vossa reflexão e aprofundamento: todos, desde os Sindicatos, às Associações de Reformados, às Autarquias, falam das “pensões de miséria”, dos idosos, como o grupo social (“de referência”), mais pobre. Se tivermos uma lógica de análise do rendimento distribuído, será verdade. Agora, pergunto-vos, aqueles e aquelas que casaram há pouco tempo, ou que baptizaram um filho: quem deu a prenda mais valiosa? Os Pais ou os Avós ? Mais, a quem recorremos, nas alturas de “apertos económicos” (para dar a entrada para a casa ou o carro...): ao Pai urbano, com profissão bem definida, ou ao Avô ou Avó, o tal das “pensões de miséria” ? Deixo-vos esta perplexidade...
De facto, temos uma representação da condição de exclusão ou, mesmo, da pobreza que, de facto, se baseia muito no lugar comum e não naquilo que Hierneux dizia.
Talvez, por isso, insista que só conhecendo os mecanismos de criação, aqueles que incapacitam ou impossibilitam de ter acesso ao tal nível de vida e qualidade de vida, o médio e o desejado (e por isso excluem) , podemos de facto conhecer o fenómeno.

3. Algumas pistas para conhecer os mecanismos de criação da exclusão no nosso Distrito

Julgo que, hoje, o que mais conhecemos e nos assusta, cada vez mais, não é a exclusão ou a pobreza, mas a precariedade, que é, claramente, a sua antecâmara.
De facto, os mecanismos de criação de exclusão ou pobreza são, antes de mais, nos seus primórdios, geradores de precariedade.
Na verdade, sentimos a precariedade porque as colunas fundadoras da “segurança” do nosso modelo civilizacional estão, progressivamente, a deixar de ser o “ancoradouro” dos “barcos”, que são os movimentos sociais, nos quais nós “navegamos”.
Senão vejamos:
. A família deixou de ser extensa, unilocal e para toda a vida: muitos de nós não vivemos na terra dos nossos pais ou avós, alguns de nós já casámos mais de uma vez e outros, seguramente, irão fazê-lo. A crise da representação civilizacional de família é, ao mesmo tempo, a substituição das referências “do sangue” por outros mecanismos de pertença;
. O trabalho, há muito, deixou de ser para toda a vida e de depender de qualificações ou especializações; quantos de nós, antes de termos acesso a profissões ligadas ás nossas qualificações, não tivemos de experimentar outras ...?
Poderia falar de outras “colunas”, mas fiquemos por aqui...
De facto, a precariedade tem a ver com o sentido de insegurança que fomos criando, porque essas “colunas” não foram substituídas por outras.
Mais : o modo ultraperiférico como assumimos a nossa integração nos grandes espaços da globalização e da mundialização, fizeram-nos colocar, sempre em instâncias abstractas e fora de nós (como a União Europeia ou, mesmo, o IEFP ou a Segurança Social), a resolução dos nossos destinos, logo, as nossas novas seguranças agora virtuais.
Mais: o modo como assumimos os modelos culturais anexos a esse processo ou o modo como os recusamos, fizeram-nos descrer em nós mesmos e na validade das relações que estabelecemos uns com os outros: recordo, só, o discurso de exaltação do sucesso e da competitividade dos bem-sucedidos, o discurso de “alguém tem de me resolver o problema porque sou vítima o sistema”, vindo dos mal sucedidos”, as relações humanas “de plástico” dos “realty shows”, a redescoberta e moda dos lugares comuns de linguagem.
O nosso problema é precisamente esse: combatemos a precariedade, logo, a exclusão, sabendo, sem o confessar, que de facto não o estamos a fazer, porque estamos, somente, a evitar que a escola básica da aldeia não feche (mas no próximo ano fechará), que só 1/3 das formandas do curso de agentes de geriatria irão exercer a função, que a IPSS, que é nossa parceira, de solidariedade tem muito pouco. No fundo, intuímos tudo isso, mas não o confessamos: intuímos que o mecanismo fundamental de geração da precariedade é cultural e, depois, é de projecto de vida. Os males económicos do neo-liberalismo simplesmente os agravam...
Então, porque existe a precariedade, no nosso Distrito, a tal que conduz á exclusão e, por vezes, á pobreza ? Todos o sabemos...
Antes de mais, porque há mais de 500 anos que nos iludem e mentem e, ao fazê-lo, nos privam da capacidade de construir um projecto de vida pessoal e de sociedade:
. Porque nos prometeram sempre “amanhãs que cantam”, esquecendo-se que teríamos de ser nós a fazê-los cantar e não a esperar que outros o fizessem;
. Porque nos interiorizaram um discurso de miséria, dizendo que somos pobres, poucos e pequenos e que, só exibindo publicamente tal miséria e pessimismo, teríamos a atenção dos poderes; quantos deputados, autarcas e dirigentes de organizações, ao longo da história, tiveram dificuldade em esconder o agrado que, por isso, lhe causaram os números do desemprego, do envelhecimento e da desertificação;
. Porque colocaram sempre fora de nós e das nossas capacidades a resolução dos nossos problemas, atribuindo-a a grandes obras e iniciativas que, passarão, sempre, ao nosso lado;
. Porque nos ensinaram, ao longo de todos este tempo, que a cidade e o urbano é que era bom e que tudo o que era escala pequena era símbolo de miséria.

Em suma, a verdadeira causa da nossa precariedade é a castração histórica da consciência cidadã que nos privou de nós mesmos.
Poderá estar aqui a chave da compreensão dos mecanismos de criação da tal propalada “pobreza estrutural do Alentejo” e dos seus “rostos oficiais”.

4. Então, que fazer?

Sejamos um pouco optimistas.
É possível combater estes mecanismos criadores de exclusão, entre nós. Só que isso implica que lutar contra a exclusão seja, antes de mais, uma atitude cívica que tenha os seguintes limites:
. A construção, a nível da pessoa, antes de mais, de projectos individuais de vida (e não só de projectos familiares ou profissionais) que permitam o descobrir novas pertenças e vinculações identitárias, construindo uma consciência cidadã;
. A construção, a nível local e regional, de dinâmicas de redescoberta de recursos, que, apropriados pelos cidadãos, sejam geradores de riquezas que são produzidas geridas e partilhadas pelos habitantes;
. A construção, a nível das representações colectivas, da ideia que não está na nossa mão acabar com os rostos/problemas da pobreza, mas está na nossa mão construir as condições locais para que eles não nos afectem.
É evidente que isto implica outros discursos de política social, outras posturas profissionais o outras instituições.
Talvez, por isso, outro dos nossos grandes problemas seja este: queremos combater a exclusão, muitas vezes animados de um discurso inovador e que “vai ao fundo” da questão, mas com instituições com práticas e gestão ainda medieval. Não posso deixar de sorrir quando vejo pessoas como o Padre Maia ou o Padre Melícias a falar de “economia social”: de facto, eles referem-se é á ”economia do social”; ou quando vejo o desprezo institucional a que está votado um documento orientador como o Plano Nacional de Acção para a Inclusão.
Daí que o nosso desafio, neste início de século seja grande e radical: nunca erradicaremos a exclusão e muito menos pobreza, pois ela é regra dos sistemas; está, sim, nas nossa mãos construir sociedades inclusivas, dentro do modelo económico-político infelizmente dominante, e isso passa por:
. Construir a consciência da participação cidadã
. Construir, localmente e articuladamente, processos duráveis de
desenvolvimento.

“A pobreza nasce dentro de nós. Na falta de crença em nós mesmos. Na falta de fé nos outros e no modo como eles nos olham. Na excessiva confiança na dependência dos poderosos. Na descrença absoluta que as transformações históricas são, antes de mais, estados de paixão que rebentam no íntimo de cada um, e, só por isso, incendeiam a sociedade.”
Francesco Alberoni



Viana do Alentejo, 18 de Junho de 2002

quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

AVATAR : um filme com mensagem exemplar



Fui, a uma das (boas, mas tão pouco frequentadas ...) salas de cinema do Marco, ver o filme da "moda", estes dias : AVATAR.

Confesso, fui, mas suscitado por a questão (falsa) da classificação etária, pelo menos nesta versão sem 3D. Fui e voltei: vi o filme 2 vezes, em menos de 24 h.

Para além de ser, esteticamente, imensamente bem conseguido, tem uma mensagem sub-liminar evidente : a ligação umbilical entre todos os seres vivos do Universo, uma ideia universal de uma Deusa-Mãe, que a própria Antropologia confirma. E o perigo que o pensamento único "utilitarista" representa para este equilíbrio.


Recomendo, vivamente.



Do mesmo modo, faço um apelo : VÃO AO CINEMA NO MARCO ! AS SALAS SÃO BOAS, os filmes estreiam, também, aqui e adolescentes desrespeitadores há em todo o lado !






Formas de estar na vida....

Os "blog" e, depois, aquilo a que se convencionou chamar "redes sociais", trouxeram á luz do dia o melhor e o pior que existe no ser humano.

Um extra-terrestre que, por não conhecer a nossa realidade, a tentasse entender através dos "blog", tiraria inúmeras conclusões, das quais destacaria o ficar a pensar que existem, em Portugal, centenas de pessoas que se chamam "Anónimo" !

Infelizmente, servem, também, os "blog" para cultivar essa característica, bem portuguesa, do não "dar o nome".

Também, promoveram um traço nacional cada vez mais difundido : a escrita dissimulada. Ou seja, escrever críticas sobre pessoas ou grupos, sem referir a quem se dirigem, deixando, no ar e na sua escrita, um manto diáfano, não de fantasia (como Eça de Queiroz dizia) mas de cobardia.

Pessoalmente, encaro um "blog", como este (disse-o no primeiro "post"), à maneira de um diário pessoal, que partilho com quem o quer ler. Mesmo com aqueles que o fazem com intenções derivadas de certas frustrações pessoais.

Remeto quem faz o favor de me ler, para a autêntica "destilaria de veneno", contra a minha pessoa e contra outros que ousaram criticar o seu "Deus", que são os "post" do meu Camarada, do PS, Jaime Teixeira, no "Marco Hoje", mormente o último, intitulado "Esquizofrenia" ou um anterior , intitulado "Há quem tenha mais que fazer", este em 28 de Novembro.

(Repara, Camarada Jaime, eu digo a quem e ao que me refiro, não me cubro com o manto diáfano acima dito, precisamente, o último).

O meu Camarada Jaime goza, sem o referir e , seguramente, porque não o consegue entender, com o nome do meu "blog"; sobre quem critica o seu "Deus" (que, por sinal, já o desautorizou várias vezes), mas sem dizer os nomes, tece considerações que roçam a calúnia. Repito, como convêm, com o tal "manto diáfano", sem dizer quem são.

É que, Camarada Jaime, o PS local precisa de tudo menos das tuas atitudes. És o maior, fartas-te de trabalhar, mais num dia, do que aqueles que criticam o teu "Deus", num ano, como escreveste. Queixas-te (não sei onde viste isso na minha pessoa) que eles são elitistas, são Doutores. Gostam é de reuniões (olha, um bom manual de História dir-te-ia que um senhor chamado Salazar e o seu contemporâneo Hitler abominavam reuniões...).

Quem tem esquizofrenia, afinal ?

O PS local precisa de tudo menos dos boatos que se põem a circular propositadamente, sabendo que, precisamente, depois, mesmo outros Camaradas, que estão com o teu "Deus", farão com que cheguem aos meus ouvidos. E sabes que eu reajo.

É que, Jaime, nas reuniões do PS eu FALO e assumo o que digo. Tu, simplesmente, fazes comentários em "off", mandas "bocas", depois, fazes o trabalho de conspiração de "sacristia", ou seja, á entrada e saída da reunião, onde consegues ter audiência.


Mas tudo isto , afinal, não foi suscitado pelo meu Camarada Jaime. Já perdi muito tempo com ele.


Serve para, com justiça, corrigir uma afirmação que fiz no último "post":

O Presidente da Concelhia do PS do Marco teve a amabilidade de me telefonar e referir que não havia nenhum pedido de inquérito, conducente a expulsão do PS, sobre mim e sobre o meu Camarada Rolando Pimenta.

Afinal, os profissionais do "boato" mentiram.Resta saber com que intenção. E suscitaram outros a veicular falsa informação, que me chegou. E eu reagi, como gosto de fazer.


Posso ter muitas divergências com o meu Camarada Artur Melo, mas agradeço-lhe a clarificação.

Existe sempre uma diferença entre os seguidores e aqueles a quem consideram "Deus", felizmente.

quinta-feira, 7 de janeiro de 2010

Ser cidadão tem um preço...




Um blog é isso mesmo, um diário pessoal, mas que aceitamos partilhar. Com os riscos que, daí, sucedem.


O pessimismo que vou sentindo marca o meu quotidiano actual; continuo, contudo, a lutar pelas causas que estruturam a minha vida. Não permito o prazer de verem a minha desistência, a ninguém.


Neste momento, por exemplo, estou constituído arguido em 2 processos judiciais. Corre, ainda, ao que sei, um requerimento de militantes locais do PS/Marco para que eu e outro Camarada sejamos expulsos do dito Partido, por infidelidade


Em todos, um denominador comum : denunciei abusos e "malfeitorias" de quem tem Poderes e abusa deles, exprimi a minha opinião, critiquei.


Vamos por partes :


Caso 1 - Neste blog, em Novembro, escrevi o texto "Prostituição política em Estremoz". Convido a uma re-leitura. Logo, "honras ofendidas" se levantam e, juntamente com mais 2 cidadãos (estou bem acompanhado e só o estatuto de arguido me impossibilita de dizer mais sobre quem são), sou acusado de ter "vexado" o recem-eleito Senhor Presidente da Câmara de Estremoz e a Vereadora "eleita pelo PS mas que a troco do vencimento de Vereadora a tempo inteiro declara que passa a integrar quem ganhou, o tal movimento MIETZ". Bom, como se o vergonhoso acto desse "casal autárquico" não fosse público e alvo de chacota nos meios políticos locais e do Alentejo. Lá me defenderei.


Caso 2 - Porque há 25 anos que ando no Mundo do desenvolvimento pessoal e social, fartei-me de ver tanto oportunismo, incompetência e "sacanagem" no mercado da formação profissional e resolvi, juntamente com outros cidadãos do ramo, começar a denunciar, identificando-me (só os "moluscos" são anónimos) e nomeando os infractores, os imensos casos e práticas que fazem denegrir essa actividade. Já redigi 14 denúncias, todas fundamentadas. Sei que algumas estão a conduzir a inquéritos e investigações, um pouco por todo o País. Uma "donzela ofendida" (neste caso uma instituição, por sinal, também, de Estremoz) vem acusar-me (coincidência ?) também de "afirmações vexatórias", ou seja, afinal era mentira o que todos sabem continuar a ser verdade : eles não contratavam formadores por um valor e, depois, obrigavam-nos a fazer um donativo "forçado" de 10% para a Instituição ...; na queixa, também estou muito bem acompanhado por mais 2 arguidos, mas o estatuto obriga-me a ficar por aqui.


Caso 3 - Por inconfidência de alguém, soube que um grupo de "neo-militantes" do PS do Marco (talvez daqueles que, vindos da área do CDS, foram responsáveis pelo brilhante desastre eleitoral de Outubro) requereu a minha expulsão do PS, juntamente com outro Camarada (Rolando Pimenta), por falta de fidelidade ao líder da Concelhia, expressa em textos escritos de crítica à estratégia (?) e prática eleitoral, nas Autárquicas. Bom, se alguém está a mais no PS, acho que não sou eu...; a Declaração de Princípios do PS diz, com clareza, que no PS não há delitos de opinião. Muito menos "peronismo" ou "presidencialismo".


Pois é.

A Cidadania custa algo. Mas não podemos dizer que a defendemos, se não a exercermos e assumirmos os riscos.

Mas vou continuar assim, prevendo já que vou coleccionar estatutos de arguido em muitas ocasiões.




quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Por um Natal com a verdade possível...


UM BOM NATAL



Deus está vivo….

No “mais fundo do fundo” do hipócrita “espírito de Natal”, minado pelas estratégias comerciais, ainda é possível vislumbrar a mensagem essencial:

Deus é de todos e para todos.
Ultrapassa e faz convergir as diferenças culturais (significadas no “Reis Magos”), é anunciado ao Mundo pelos mais desprovidos (os pastores), desde logo perseguido pelos poderosos (simbolizados no tal Rei Herodes).

Mais tarde, deixará a Família, a sua Terra, a sua Segurança e irá tratar de mudar o Mundo. Afinal, fazer o essencial.

Depois, será morto, mas Deus só morre por 3 dias…; mas essa é outra parte da história, porque não há Natal sem Páscoa.

Agora, celebremos o nascimento e o seu simbolismo.


UM BOM NATAL, PARA MIM, É ISSO :

ACREDITAR QUE UM NOVO MUNDO SEMPRE TEM SIDO POSSÍVEL !




sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

UM NOBEL DA PAZ (DO) POSSÍVEL




Li o discurso de Obama, aquando da recepção, ontem, do Nobel da Paz.

Nunca fui muito seguidor da atitude facilitista de "endeusar" pessoas que, à partida, sabiam que teriam imensas dificuldades para, quando chegadas ao Poder, cumprirem, na integra, os objectivos máximos do seu Programa.

É assim com Lula da Silva, no Brasil. Quem o "endeusou", agora já tem pudor em o apoiar, na esquerda "radical" portuguesa.

É assim com Obama.

Pessoalmente (e o nome deste blog é, disso, prova...) hoje inclino-me a respeitar o "possível", ou seja, o aceitar que há quem tenha um programa político progressista, mas ter consciência de que só 75% será possível ser feito.

Li e reli o discurso "Nobel" de Obama e julgo-o exemplar. Sobretudo, porque se centra "no possível", sem hipocrisia.

Realça que não tem o estatuto de um Gandhi, de um Mandela, que deram a vida pela Paz. Com imensa sinceridade, diz que a "não violência" nunca teria travado Hitler, por exemplo. Também gostaria de acreditar que essa atitude poderia derrotar os tiranos. Aliás, o próprio Gandhi conheceu a vitória (derrota do colonialismo na Índia) e a derrota (cisão Índia/Paquistão) da "não-violência.

Fala, por isso, das "guerras justas", que é preciso travar para que a Paz seja possível. E dá exemplo dos progressos "possíveis" que a sua Administração tem feito, para, no mínimo, atenuar as injustiças dessas "guerras justas" (o fim anunciado da prisão sem direitos de Guantanamo, por exemplo).

Demonstrando um notável humanismo, reconhece, que como chefe máximo do poder militar dos Estados Unidos, manda muitos cidadãos para cenários onde (ele diz textualmente) alguns vão morrer e outros vão matar. E assume isso como uma responsabilidade, também, pessoal. No âmbito das tais "guerras justas".



Obama só me encanta, quanto baste. É o tal "possível". Tal como Arafat (a quem devo a "nega" de um visto para ir a Israel, por causa de uma foto, em 1979 onde, como dirigente estudantil, lhe apertei a mão) me encantou, como outra versão desse "possível". Ou como Mandela, por largos anos, teve e terá a minha militante admiração : fez o "impossível" que foi ter a grandeza de perdoar a quem lhe tirou mais de 30 anos de vida.



Parafraseando uma velha frase do Maio de 68, ser "realista" hoje deve continuar a ser exigir o impossível; eu faço-o, no campo do acreditar em utopias igualitárias e serem elas o destino final e a luz que conduz e informa as minhas lutas.

Contudo, isso não me cega ao ponto de não lutar, de imediato, e, sobretudo, congratular-me com a concretização do "possível".






sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Ainda há "lutadores" assim...

(Leandro Vale é o segundo, a contar da esquerda)

Conheci o Leandro Vale vai para mais de 30 anos, nos tempos quentes da Revolução e onde ela mais "fervia": em Évora, no Alentejo, onde ele, militantemente, trabalhava na edificação daquilo que hoje é o CENDREV (vulgo Centro Cultural de Évora).
Para os mais distraídos, o Leandro Vale é actor, encenador, escritor, radialista, jornalista, com vasta produção. A minha geração (aqueles que, hoje, têm mais de 50 anos...) recordar-se-ão do "teatro radiofónico", na então Emissora Nacional, dos Programas Infantis da RTP dos anos 60. Lá andava, como actor, autor, e encenador, mesmo produtor, o Leandro Vale. Mais recentemente, em produções da RTP/Açores (nem sempre valorizadas aqui no Continente), vimos o Leandro, por exemplo, num brilhante desempenho em "Mau tempo no Canal", ve-lo-emos em "Antero", só para citar alguns exemplos.
Reencontrei o Leandro, nos Açores, em 1991, ouvindo uma entrevista sua a uma rádio da Região, onde falava do seu novo projecto, já então em curso : o Teatro em Movimento.
A partir daí, eu e o Leandro temo-nos seguido mutuamente. No campo político partidário, não tanto. Ele permanece fiel ao seu PCP de sempre. Mas tratamo-nos por "Camarada", na mesma.
O Leandro é um exemplo de vida para mim, do alto dos seus 70 e picos anos.
É o último dos românticos.
Não tem automóvel, muito menos carta de condução, mas isso não o impede (e ao seu "Teatro em Movimento") de formar actores, encenar e produzir teatro no Algarve, no Alentejo, na Grande Lisboa, no Porto, em Esmoriz, no Nordeste Trasmontano, nos Açores...; aliás, só admito que exista um cidadão que conhece melhor do que eu os horários de comboios e autocarros, no País: precisamente o Leandro !
Qual D. Quixote, lutou e conseguiu fazer do seu "Teatro em Movimento" a primeira companhia profissional trasmontana e daí irradiou, geralmente com produções próprias, para o País inteiro. Muitas vezes desconsiderado e desvalorizado pelos Poderes (o Leandro escreve no seu Curriculum que é militante do PCP, por exemplo...), tendo uma lista de devedores talvez maior do que a do Ministério das Finanças ( o Leandro coloca o coração á frente da carteira...) continua a acreditar que as artes dramáticas são essenciais á qualidade de vida do mundo rural e do interior em geral. Por isso, por exemplo, agora, vive em Torre de Moncorvo e "irradia" a partir daí, não se coibindo, como fez nas Autárquicas, de aí, uma vez mais, dar a cara...(e já viveu e fez o mesmo em Bragança, Velas de S. Jorge-Açores, etc).
Homem de riscos e causas, é um amigo de Cuba e da causa castrista, que defende com uma paixão imensa (quiçá por vezes cega), o que o faz ser visita assídua daquela emblemática ilha.

Em Junho, o Leandro partiu uma perna. Temi, pela sua idade, o fim de tanta actividade agitada.
Qual quê ! Há dias, já pelo seu próprio pé e sozinho como (quase) sempre, lá apanhou o comboio no Pocinho, para mais uma digressão de apoio aos "discípulos". Confesso a emoção que senti quando constatei que ali temos, mesmo, um "homem de ferro".

Gosto de saber que tenho como Amigo alguém que, de facto,continua a, na vida, não ter meias-medidas, preconceitos ou interesses "interesseiros" : o seu nome é Leandro Vale.