terça-feira, 7 de dezembro de 2010

Pobreza : Um exemplo de como a combater com simplicidade...


Começo a estar saturado de tantas campanhas (necessárias, reconheço), para garantir que se recolham géneros, se somam donativos, se vendem estandartes do "menino jesus" por 12 euros.
Hoje vi, que um Restaurante em Maximinos, Braga, chamado a "Rampinha", aparecia, muito justamente, na RTP 1, dizendo que disponibilizava refeições, ao Almoço e Jantar, para quem não tinha meios.
Li, no JN, julgo que, no sábado, que a cidade do Porto é o local onde existem mais apoios para os sem-abrigo que, de todo o País, para lá convergem. Eu mesmo, em 2007, fui voluntário, para tal, nessa Cidade.

Mas queria dar um testemunho de algo mais "radical".

Conheço um micro empresário de construção civil, com a sua actividade legalizada ( abriu actividade e paga as suas contribuições...) que, quando, em Lisboa (onde trabalha), algum surge a pedir esmola, ele faz-lhe um simples convite : "Vem almoçar comigo, depois, se quiseres trabalhar para ganhar dinheiro, eu pago X por dia, comprometes-te por uma semana e tu experimentas e continuas se quiseres".
Esse jovem brasileiro, pois também chegou cá quase sem nada (mas hoje com actividade legal, repito), optou por algo que só o dignifica e a quem está excluído : associar a remuneração/apoio económico a um trabalho !
Mas este micro-empreendedor disse-me outra coisa : falou-me de alguém a quem fez tal proposta e que, ao fim de alguns dias, desistiu porque, todos os fins de semana, está, muito "bem vestido" e "cheiroso", no Aeroporto de Lisboa, dizendo que perdeu a bagagem, o voo, e assim, ganha mais, pedindo o apoio a quem passa.
Ou seja, este "excluído" tarda a ASSOCIAR O SALÁRIO A UM DESEMPENHO SOCIAL REMUNERADO. O SALÁRIO (MARX, AFINAL TINHA RAZÃO) É A RELAÇÃO ESTRUTURANTE DA SOCIEDADE ...

A minha homenagem a este brasileiro/português "empreendedor" pobre, contudo cristão dos "quatro custados", pois filia estes actos nesta sua militância de Fé, que de si mesmo diz não "ser estudado" (ou seja, não tem a escolaridade da sua idade) e resiste (infelizmente, até hoje...) a processos para tal, mas tem uma perspectiva praticista do que é ser cristão. Mais do que qualquer Presidente do CNIS, UNIÃO DAS MISERICÓRDIAS OU AFINS...
Porque o conheço, estimo e valorizo, aguardo, ardentemente, que ele perceba que existe o RVCC ou o RVCC-PRO e, finalmente, perceba que "ser estudado" não é ir para a Escola, mas, simplesmente, conquistar o lugar a que tem direito, pelas suas competências pessoais e profissionais adquiridas ao longo da vida.
Por razões evidentes, embora me apetecesse, não digo o seu nome.

Aquela ideia de oferecer trabalho a quem pede esmola é magnífica, simples, prática, sem custos, mormente, num ramo (obras, construção civil) onde, mesmo em termos informais, não existe muita gente que queira "vergar a mola" ! Mereceria abrir um TeleJornal, de cidadãos também eles com problemas, mas, por isso, de boas notícias, de atitudes positivas, pois se a "crise" existe, temos de ter imaginação para a combater...

Gostava que, com todos os riscos, houvessem outros micro-empresários destes. Que não só "chorassem", mas AGISSEM.
Combateríamos a Pobreza, de facto e com frutos imediatos, junto de quem é pobre.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

O que me poderia levar a fazer greve, hoje ...


Ponto de ordem 1: Não faço greve simplesmente porque, como trabalhador independente, mais própria mente consultor, tal não me assiste; aliás, trabalho muitos sábados , domingos e feriados, quando me apetece e é necessário, logo, dizer que faria Greve seria uma figura de retórica.


Ponto de orem 2 : Vivo, desde 1993, todas as situações que hoje são invocadas para fazer greve, como trabalho precário, recibos verdes verdadeiros, falsos recibos verdes, etc; sinto na pele, há muito, a dita "crise" logo, sei, por experiência, a mesma é estrutural, do MODELO ECONÓMICO DO NEO-CAPITALISMO LIBERAL , logo não é culpa específica deste governo, mas do dito MODELO, logo, como a greve é personificada neste Governo, não a faria nunca, pois o objectivo está enviesado; teria sido mais fácil estar num das manifestações anti NATO (essas sim, contra este MODELO de economia...).



Contudo, algo me faria fazer Greve, se o motivo invocado fosse esse:

A INCAPACIDADE DOS PARTIDOS DE ESQUERDA (PS, PCP, VERDES, BE), NO PARLAMENTO, CONSTRUÍREM UMA PLATAFORMA PARLAMENTAR QUE TIVESSE POSSIBILITADO UM OUTRO ORÇAMENTO, OUTRAS MEDIDAS DE POLÍTICA ECONÓMICA E SOCIAL, ENFIM, UM COMPROMISSO Á ESQUERDA.


E aí a culpa não é só do Governo e do PS, é da restante Esquerda.


Faria, com muito gosto, uma Greve contra isso, contra uma Esquerda parlamentar (ou "para lamentar") que torna IMPOSSÍVEL uma política diferente e vai entregar, de "mão beijada", o Poder á Direita do PSD...
Por isso, faria ESSA greve e não ESTA.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Um DESERTO de Acção Social, no Concelho do Marco




A Associação ARANDUM, de Alpendurada, Marco de Canaveses, desenvolve uma campanha de apoio a uma jovem aluna do 12º ano, Sara Vieeira, com necessidades educativas especiais.
Os colegas bloguistas do Marco (MarcoHoje, Marco2009 e marcoensecomonos reproduzem esse apelo).
Ele leva-me ao desastrado (não digo, por enquanto, desastroso) trabalho do Gabinete de Acção Social da Câmara do Marco
Para quem não sabe, foram criadas, quase há 10 anos, como competência das Câmaras, as Redes Sociais Locais, ou seja, um fórum INSTITUCIONAL onde, por força legal (a Câmara, as Juntas, o IEFP, a Segurança Social, a Saúde), ou por desejo próprio, instituições e mesmo, PESSOAS, ligadas á Acção Social, têm assento, precisamente para planear a acção municipal, rentabilizar e articular energias, recursos e ideias e, também, fazer intervir. Ou seja, um orgão de planeamento, mas, também de cordenação da acção, por isso mesmo presidido pela Câmara.
Em nome de uma instiuição, fiz parte do Plenário da Rede Social do Marco de Canaveses, entre Novembro de 2007 e Março de 2010. E intervi, mesmo polémicamente. Pude, aí, observar o trabalho inconsequente, o exercício de poder pessoal, a autêntica "missa" (no sentido caricato do termo), que essas reuniões de plenário eram. Quando Manuel Moreira (MM) não ia, a Vereadora demonstrava a sua ignorância, medos e respondia, com evasivas e, por vezes, com erros, ás questões. As actas, embora sejam uma vergonha, porque omitem factos, conseguem, ainda, retratar tal funcionamento. No meu caso pessoal, que em Março/Abril de 2009 reportei no "MarcoHoje", ficou clara a profunda incompetência da estrutura do Gabinete e do Chefe de Departamento, assim como do Presidente, perante quem dominava a temática e a legislação, no caso o Contrato Local de Desenvolvimento Social, ao que MM respondeu como um arruaceiro.

Adiante...
Se, no Marco, houvesse uma Rede Social a sério, o caso da Sara teria sido, articuladamente, analisado e, talvez RESOLVIDO, pela Câmara, Segurança Social e Saúde (que, por sinal, fazem parte do Núcleo Esxecutivo da dita Rede Social-mais um "altar" onde MM diz as suas "missas"- decerto com o apoio do "braço" que seria o Gabinete de Acção Social). Mas porque as estruturas onde a Câmara tem liderança, no Marco, são instâncias de um serôdio culto do centralismo e do clientelismo, está tudo dito.
Como cidadão, "aponto o dedo" ao Núcleo Executivo da Rede Social, no caso da Sara. E ao dito Gabinete ("his master voice"), que, se fizesse articulação entre os agentes sociais, conseguiriam aquilo que se lhe pede : ninguem diz que a Câmara tem de substituir a Saúde ou Segurança Social, mas que, precisamente, deve chamar esses parceiros e articular os seus recursos - tem autoridade para tal - no sentido de resolver o problema.
Mas, com dizem os brasileiros, "cada macaco no seu galho".
Existe uma pofissão que se chama Assistente Social, que tem competências científicas, técnicas e instrumentais para saber como isso se faz, mormente essa mediação. E ao que sei, MM não tem nenhum Assistente Social no "seu" Gabinete de Acção Social.
[Não esto a reclamar emprgo para ninguém : á única Assistente Social que tnho na família está, há muito, empregada, mas conheço alguns jovens marcoenses licenciados nesse curso á procura de trabalho...]
Assim, á incompetência política junta-se a falta de competências técnicas.
Admiro as campanhas de benevolência e solidariedade pessoal; são necessárias, porque resposta da sociedade civil; é a Cidadania em acção, no concreto. Mas isso não substitui nem faz esquecer a omissão de quem se devia articular para resolver. Ou a chocante incompetência de Presidentes de Câmara, de Vereadores,de Chefes de Departamento, de Gabinetes (enfim, estrutura do Poder Local) que têm a competências (as tais de articular recursos...) que não exercem.
E quando estão pessoas em jogo, é, no mínimo, um crime moral.

quinta-feira, 11 de novembro de 2010

Homenagem á minha Mãe



Faz amanhã, dia 12 de Novembro, um ano que faleceu a minha Mãe.


Há pouco menos de um ano, neste meu blogue, fiz-lhe a homenagem que achei justa, aquando do seu aniversário natalício, que ela não viveu (27 de Novembro).


Hoje, recordo a minha viagem, do Marco para Évora, no seu último dia de vida.


O meu modo de encarar a minha fé (e convicção) na vida eterna nunca me fez ter aquela tensão de querer ver as pessoas que amo, antes da sua morte. Assim foi com o meu Pai, assim foi com a minha Mãe, assim, espero, que outros o façam comigo.


Recordo a minha viagem de "Expresso", nesse dia do ano passado, do Porto para Évora, quando, cerca das 16h 30m, o meu irmão mais velho me ligou e eu perguntei-lhe "A nossa idosa, como está ?" e ele disse, "Já não está...". E do telefonema do meu irmão Quim, a dar-me a mesma notícia e a referir que eu não tinha de me fazer forte. Uma vez mais, não verti uma lágrima...


Mudei de autocarro em Fátima e tinha 35 m de espera.


Lembrei-me , nessa altura, do Hotel, onde em 1996, eu e a Helena tivemos o prazer de ser os últimos a proporcionar uma viagem e estadia, num local de referência, aos meus Pais (eles casara, em 1952, em Fátima). Devemos ter batido o "record" do Mundo de baixa velocidade, pois ambos tiveram dificuldade para fazer (com eles) os 300 m do Santuário ao Hotel (e tivemos de pedir um Táxi...) e levámos 1h 30m.


Lembro a sua alegria, nos almoços e jantares no Hotel, para os quais, á "moda antiga", se vestiam com outras roupas e desciam , do quarto á sala de refeições e tinham um comportamento cerimonial (como era da "norma") e afável e educativo, como era próprio de Pais. Orgulho-me de os ter feito passar esses momentos.


Mas no dia do seu falecimento, nesse intervalo técnico entre "Expressos", teria tido o tempo de ir ao Santuário de Fátima e rezar por ela.


Não fui. Fui ao tal Hotel Verbo Divino, último das tais suas noites fora de Casa, pedi, no Bar, uma taça de espumante das Caves Ailança (bebida familar da minha Mãe), verti gotas no chão (á maneira latina, que expliquei ao funcionário e o emocionou e, logo, não me cobrou essa bebida) e parti para o seu funeral.


Hoje, confesso, não me tenho preocupado em saber se vai haver uma Missa por "alma" de minha Mãe. Confesso a minha falta de geito para esse culto dos nossos antepassados (não gosto de "mortos"), nem dos termos circunstanciais da "eterna saudade". Talvez porque não a tenho, nem possuo essa visão. A essência do Ser dos meus Pais repousa no seio D'aquele em que eles acreditavam e, por tal, que pode avaliar o seu desempenho neste Mundo. E os tem, decerto, na sua graça.


Da minha Mãe, recordo a Senhora que me lia histórias, que fazia "milagres" de economia doméstica, que, contudo, não deixava de gostar das coisas "sofisticadas" que a sua condição de menina de "boas famílias"a haviam habituado. E que o meu Pai se esforçava por lhe garantir.


Há meses, do espólio documental da minha Mãe, o meu irmão mais velho mostrou-me uma fotografia, de quando ela tinha 17 anos, dedicada ao seu namorado, o meu Pai, onde, no verso, lhe pedia desculpa pelos "sofrimentos" que lhe causava pelas suas dúvidas, hesitações e limitações no espaço e tempo para namorarem(pois estávamos na década de 40 do secúlo XX); casaram , só, 12 anos depois...


Gosto destes "resistentes" de sentimentos e convições de vida. E que pagaram toda a sua vida por isso. Que nem sequer se inibiram de me apoiar em coisas (políticas) que nem gostariam.

A propósito. esta semana a minha irmã, em cuja casa eu durmo em Évora, nesta minha vida profissional, deu-me uma colecção dos recortes de jornais que a minha Mãe (e, certamente, na sua vida, pelo meu Pai), juntou das minhas campanha políticas, desde 1993. Cá para dentro, emocionei-me, pois eram causa em que ela, decerto, não acreditava, mas fazia-o por mim.

Por isso, a minha Mãe, que se chamava Maria de Lourdes (com "o" e "u", como ela dizia), é, para mim, uma "Nossa Senhora de Lourdes", protectora e afectuosa, mas, também, tolerante das atitudes que não aprovava, de cujas ditas aparições ela é contemporânea.

Digo isto sem "eterna saudade", e sem esperar encontrar quem quer que seja, na "outra vida"( na qual creio, mas que não me compete avaliar se a mereço), mas porque sei que ganhou o direito á eternidade, apesar do seu "mau feitio"....








sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Sobre o descrédito do sistema de formação profissional(I)



Conheço o mundo da formação profissional desde 1988, quando, logo nos alvores, a "formação", nascendo "torta", serviu para encher os bolsos de muitas empresas, pois, nessa altura, pouco ou nada se exigia a quem se propunha organizar formação, sendo, até, muitas vezes os próprios Centros de Emprego a "mendigar" para conseguir promotores. Repito, isto em 1988.


Depois, veio a regulamentação disciplinadora: a certificação dos formadores, a acreditação das entidades formadoras, etc.


Em 1999, segundo o extinto IQF, existiam mais de 900 entidades formadoras acreditadas, só 35 vezes mais do que aquelas que, em 1988, organizavam formação.


Rapidamente a formação se constitui como "remédio" para tudo : para o insucesso escolar, para o desemprego, até para viabilizar gabinetes de contabilidade...


Sugiram alguns "cromos" que ainda hoje se mantêm e definem o sector :


- O eterno"formando" , que procura cursos como quem procura emprego, aliás, olha cada curso como um emprego, não se detendo na utilidade do mesmo, mas, antes, querendo, somente, saber o valor da bolsa de formação; conheci, recentemente, um cidadão com 48 anos que NUNCA trabalhou na vida, pois sempre tem andado em "cursos";


- A entidade formadora "oportunista", que, mesmo tendo sede num "vão de escada", organiza formação em todo o País. Fabricou várias "chapas 5", ou seja, textos de fundamentação de necessidade do curso x no local y, que, contudo, são iguais para Viseu, Porto, Freixo de Espada á Cinta, Arrentela, Amareleja, etc. E consegue o financiamento do FSE !


- As siglas que, tal como num" pronto a vestir", anunciam cursos pé-formatados pelas tutelas, onde tudo está já concebido, desde os módulos, conteúdos e onde é só aplicar, sem qualquer laivo de criatividade. Siglas como EFA, CEF, CET, etc, para quem anda neste (sub) mundo da formação, quer dizer isso mesmo : um "pronto a vestir" de qualificação e habilitação, que pouco acrescenta aos conhecidos vícios do ensino básico e secundário.


Na minha modesta opinião, a falência do sistema de formação está, antes de mais, nessa "caderneta de cromos".


De facto, o tendencialmente "eterno formando" procura curso atrás de curso e, assim, alimenta as entidades formadoras que, numa lógica facilitista, lhe fornecem os produtos "pré-formatados", pois até lhes permitem aceder ao 9º, ao 12º ano; acontece, contudo, que, tal como nas velhas cadernetas dos "cromos da bola", há os difíceis e os fáceis, ou seja, aqueles que conduzem o processo pedagógico com rigor e aqueles que o fazem de modo obscenamente fácil.


Mas a "encadernação" da caderneta explica o drama actual do mundo da formação. Como referi, as entidades formadoras cresceram em progressão geométrica, como cogumelos e nenhuma tutela consegue refrear tal fenómeno, por mais apertado que seja o crivo da acreditação de entidades.


A agravar, as entidades formadoras não se especializaram, ou seja, continuam todas a "vender" o mesmo , os tais EFA, CEF e outros. É ridículo ver as centenas de cursos das áreas de apoio social e à comunidade, ou outras, que continuam ser feitos :Geriatria, TASPC ou TICs variadas, cabeleireiros e esteticista (qualquer dia temos um "personal hair stilist" para cada português)...


Por outro lado, a escola pública, hoje, coloca no mercado, também, esses produtos de "pronto a vestir" formativo, com evidente vantagem sobre as outras entidades.


É evidente que, há muito, a oferta é superior á procura e um certo "darwinismo social" está a acontecer.


O que resta então :


Ás entidade formadoras, reflectirem, reconverterem-se, especializarem-se em áreas específicas de formação e, sobretudo, conceberem produtos próprios (acabem com o "pronto a vestir"...), baseando-os em diagnósticos sérios .

Sei que é difícil (trabalhei e estive ligado a várias), mas sempre tal defendi cheguei a tentar lançar estas dinâmicas.

Por isso, sei do que falo.

Mas voltarei ao tema.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

Por causa do aniversário de um Biblioteca




Ocorreu, na passada 5ª feira, o 21º aniversário da inauguração da Biblioteca Municipal Irene Lisboa, em Arruda dos Vinhos, em 1989.
Recordo, com saudade, a epopeia que foi criar esse equipamento cultural, contra o cepticismo (e ironia...) dos poderes dominantes, Câmara incluída e dos bem pensantes locais, que só conheciam o caminho para Lisboa e, como tal, actividades culturais perto de casa eram desprezíveis.
Bom, quase sem se aperceber, a Câmara local celebrou um contrato programa com a tutela governamental (isto em 1987) e, aí, tinha que avançar...; foi preciso formar pessoal, comprar livros, mobiliário, etc.
Depois, arranjar um espaço : o menos nobre, por sinal, o sótão do edifício da Câmara, que, embora tendo 200 m2, não o deixava de ser.
Depois, eu defendia que a Biblioteca devia estar aberta à noite e aos sábados, mas o "sacro-santo" horário da função pública obrigava a horas extraordinárias. Na época eu nem era Vereador dessa Câmara, mas um simples colaborador. Logo apareceram 3 jovens que, voluntariamente, garantiam a abertura da Biblioteca, nesse horário, sob minha responsabilidade, para haver alguma legitimidade.
A afluência, no primeiro mês (Outubro de 1989) foi espantosa : num população de 12 mil habitantes , cerca de 260 leitores (sobretudo crianças e jovens) por semana. E havia os reformados, que, pela manhã, eram clientes certos dos jornais diários.
Alguns anos depois, em 1993, como Vereador, tive a tutela da Biblioteca e iniciou-se o projecto de lhe dar outras instalações, num velho palácio a recuperar.
Já não foi, do meu tempo, a inauguração dos espaço definitivo.
Mas vendo a Biblioteca de Marco de Canavezes, onde actualmente vivo, com o simples horário de função pública e perfeitamente ignorada pela população, com um espólio ridículo, vejo uma realidade deprimente (e trabalhar no sábado e fora do "nine to five" faz parte, há muito, do horário normal de carreiras como as ligadas a bibliotecas, museus e postos de turismo, limpeza urbana, sem prejuízo do respeito pelos limites do horário semanal e do direito ao descanso semanal).
Enfim, diferenças...
Enfim, o falir da política do "local porreirismo", da mediocridade e incompetência feita poder (e oposição), num executivo sem qualquer futuro.

terça-feira, 21 de setembro de 2010

Porque um planeamento estratégico concelhio é possível...




Não quero correr o risco de ser narcisista e chamar a atenção para contributos que dei, noutros locais onde vivi e exerci a cidadania possível. Contudo, os vários sítios onde habitei e trabalhei ensinaram-me a que tenho, constantemente, de dar testemunho sobre como coisas que, aparentemente, são "complicadas" (e já falei do fecho de escolas ou dos subsídios a Colectividades), conseguem ter resolução fácil e barata. Desde que a cidadania seja activada e activa. E isso, "é dos livros", tarefa, também, do Poder Local. Isto para combater as ternas desculpas dos "custos", do "desinteresse" das pessoas, etc.

Falo, hoje, uma vez mais, do meu mandato com Vereador, repito, da oposiçã, numa Câmara PS, eleito nas listas da CDU, em Arruda dos Vinhos, entre 1993 e 1997. Porque quero demonstrar, precisamente, que há coisas (e causas) possíveis.

Falo de uma iniciativa de 1997, já no fim do mandato, quando já sabia que, por opção pessoal e profissional, não me iria recandidatar (tinha outros apelos, mormente em Beja, onde o ser docente no Ensino Superior e ser consultor de algumas organizações me chamavam).
Essa iniciativa foi, em Arruda dos Vinhos, as "1ª Jornadas de Desenvolvimento do Concelho".
Vamos por partes. Tudo começou, numa reunião de Câmara, em Fevereiro de 1995. Como Vereador, propus que baixasse à Assembleia Municipal a constituição de um Grupo Consultivo (já tinha proposto o das Colectividades), mas, agora, para os "assuntos económicos"; a proposta era concreta : esse grupo seria constituído por um eleito municipal de cada partido, por um elemento do executivo (fui eu, como proponente) e por representantes das corporações económicas com implantação local (associação comercial, organizações do sector da agricultura), assim como do sector sócio-educativo e associativo.


A função do "Grupo Consultivo para os Assuntos Económicos" era simples : dar pareceres ou sugerir actuações, junto dos órgãos municipais, visando o desenvolvimento do Concelho.
Esse grupo reunia uma vez por mês.
Desde logo, delineou uma tarefa, que coincidia com o fim do mandato : organizar um Fórum intitulado "Jornadas de Desenvolvimento do Concelho", com o objectivo de reunir os agentes económicos locais e com eles discutir as grandes linhas económicas e sociais para o futuro, ou seja, para o quadriénio seguinte.

Quase 13 anos depois, recordo o profundo envolvimento de todos, partidos políticos, em algo que viram como estruturante para a sua própria prática futura.
Essas "Jornadas" foram ridiculamente baratas. Já lá irei.

Mas foram pedagogicamente organizadas.


Primeiro, foi feita uma caracterização económica e social do Concelho e diagnosticadas as sua fraquezas e potencialidades (hoje chamar-lhe-íamos análise SWOT). Foi feita por mim, enquanto Vereador e com um consultor que (pasme-se !) teve uma avença mensal, durante 2 meses, de 50 contos (150 euros)...; logo, não se pagou nenhuma fortuna a Universidades ou a doutos economistas...


Em segundo, definiu-se a estrutura dessas "Jornadas" : 2 dias de reflexão (sábado e domingo), com painéis/debate sobre temas centrais e sectoriais, e grupos de trabalho por actividades económicas; de preferência, animados, não por "académicos", mas por gente do terreno, ou seja, outros agente portadores de experiências ilustrativas. Os temas dos painéis e grupos de trabalho seriam, precisamente, a agricultura, a indústri, comércio e serviços, educação e formação, acção social/cultural/desportiva.

Em terceiro, criou-se uma forma de envolver o tecido económico local, na preparação.Com coisas simples. Dou um exemplo : para cada tema central/sectorial, convidou-se um organismo e, no caso da agricultura, foram a CAP e a CNA. Ora, 3 meses antes juntaram-se, à mesa, para jantar, os representantes dessas confederações, o grupo consultivo e representantes locais das organizações de agricultores do Concelho. Definiu-se o que era importante abordar e, logo, cada um ficou encarregado de mobilizar os seus. Isto aconteceu com o comércio, com a indústria, com a educação, com a solidariedade social, com a hotelaria e outros serviços.

Chegado o momento das Jornadas (recordo, eram 2 dias, num Concelho com 12 mil habitantes em 4 freguesias), as mesmas abriram com 650 inscritos e cerca de 700 presenças (convidados, etc).
Na conclusão, sairam propostas orientadoras muito concretas, compromissos entre eleitos e agentes económicos (recordo que foi aí que se consensualizou e "amenizou", por exemplo, a questão da vida de grandes superfícies).

Reconheço que, no mandato seguinte, onde o PSD ganha a Câmara e a CDU "vende a alma ao diabo", só para ter um Vereador a tempo inteiro (curiosamente perdido 4 anos após), esta pedagogia se perdeu, por força dessas mudanças no executivo municipal. Contudo, durante anos as conclusões dessas "Jornadas" foram invocadas, como compromisso público que eram, para que determinadas decisões se tomassem, ou não...

Esta iniciativa custou quanto à Câmara ?
Porque se envolveram os agentes locais, os tais jantares de preparação, acima ditos, foram oferta dos restaurantes onde ocorreram; os materiais de divulgação e os consumíveis de escritório, foram oferta das papelarias ou gráficas com presença no Concelho; o local do Fórum foi o Salão dos Bombeiros Voluntários, disponibilizado gratuitamente; o "catering" das 3 refeições dos inscritos (os tais cerca de 600) foi contratado (e pago, simbolicamente) à Misericóridia e ao Externato Local, num total de 150 contos (750 euros).
Logo, fizeram-se omeletas quase sem ovos, mas, sobretudo, com os "ovos" essenciais : a participação e o envolvimento das pessoas.

Repito: os resultados eleitorais e a atitude dos autarcas eleitos depois, olvidaram, um pouco, esta dinâmica. Mas fica o exemplo. Nessa altura, não se falava ainda da "Agenda 21" ou de outras metodologias cidadãs agora conhecidas.
Mas valeu a pena e, ainda hoje, quando visito Arruda dos Vinhos (onde residem os meus filhos), existe sempre quem se lembre das ditas "Jornadas".
Ou seja, a cidadania é (sempre) possível e dá frutos.