segunda-feira, 5 de março de 2012

Um estado de alma : A invenção do Amor

Transcrevo um poema lido na minha juventude, tinha 17 anos, nas licões liceais de Filosofia.
Hoje, recupero-o, porque me ajuda a perceber que a verdade das causas, sentimentos e afectos esbarra, sempre, com os "fariseus" do costume, portadores dos pensamentos mais conservadores da época.
Aqui entendo o Amor não como só a pessoas, mas a causas e valores, também.

A Invenção do Amor


Em todas as esquinas da cidade
Nas paredes dos bares à porta dos edifícios públicos nas janelas dos autocarros
Mesmo naquele muro arruinado por entre anúncios de aparelhos de rádio e detergentes
Na vitrine da pequena loja onde não entra ninguém
No átrio da estação de caminhos de ferro que foi o lar da nossa esperança de fuga
Um cartaz denuncia o nosso amor
Em letras enormes do tamanho do medo da solidão da angústia
Um cartaz denuncia que um homem e uma mulher se encontraram num bar de hotel
Numa tarde de chuva entre zunidos de conversa e inventaram o amor com caracter de urgência
Deixando cair dos ombros o fardo incómodo da monotonia quotidiana
Um homem e uma mulher que tinham olhos e coração e fome de ternura
E souberam entender-se sem palavras inúteis
Apenas o silêncio
A descoberta
A estranheza de um sorriso natural e inesperado
Não saíram de mãos dadas para a humidade diurna
Despediram-se e cada um tomou um rumo diferente embora subterraneamente
Unidos pela invenção conjunta de um amor subitamente imperativo



Um homem e uma mulher um cartaz denuncia
Colado em todas as esquinas da cidade
A rádio já falou
A TV anuncia iminente a captura
A policia de costumes avisada procura os dois amantes nos becos e nas avenidas
Onde houver uma flor rubra e essencial é possível que se escondam
Tremendo a cada batida na porta fechada para o mundo

É preciso encontrá-los antes que seja tarde
Antes que o exemplo frutifique
Antes que a invenção do amor se processe em cadeia

Há pesadas sanções para os que auxiliarem os fugitivos
Chamem as tropas aquarteladas na província
Convoquem os reservistas os bombeiros os elementos da defesa passiva
Todos
Decrete-se a lei marcial com todas as consequências
O perigo justifica-o
Um homem e uma mulher conheceram-se, amaram-se perderam-se no labirinto da cidade
É indispensável encontrá-los dominá-los convencê-los antes que seja tarde
E a memória da infância nos jardins escondidos acorde atolerância no coração das pessoas

Fechem as escolas
Sobretudo protejam as crianças da contaminação
Uma agência comunica que algures ao sul do rio um menino pediu uma rosa vermelha
E chorou nervosamente porque lha recusaram
Segundo o director da sua escola é um pequeno triste inexplicavelmente dado
aos longos silêncios e aos choros sem razão
Aplicado no entanto
Respeitador da disciplina
Um caso típico de inadaptação congénita disseram os psicólogos
Ainda bem que se revelou a tempo
Vai ser internado e submetido a um tratamento especial de recuperação


Mas é possível que haja outros
É absolutamente vital que o diagnóstico se faça no período primário da doença
E também que se evite o contágio com o homem e a mulher
De que fala no cartaz colado em todas as esquinas da cidade

Está em jogo o destino da civilização que construímos
O destino das máquinas das bombas de hidrogénio
Das normas de discriminação racial
O futuro da estrutura industrial de que nos orgulhamos
A verdade incontroversa das declarações políticas


É possível que cantem mas defendam-se de entender a sua voz
Alguém que os escutou deixou cair as armas e mergulhou nas mãos o rosto banhado de lágrimas
E quando foi interrogado em Tribunal de Guerra respondeuque a voz e as palavras o faziam feliz
Lhe lembravam a infância
Campos verdes floridos
Água simples correndo
A brisa das montanhas
Foi condenado à morte é evidente
É preciso evitar um mal maior
Mas caminhou cantando para o muro da execução
Foi necessário amordaçá-lo e mesmo desprendia-se dele um misterioso halo de uma felicidade incorrupta


Procurem a mulher o homem que num bar de hotel
Se encontraram numa tarde de chuva
Se tanto for preciso estabeleçam barricadas
Senhas, salvo-condutos, horas de recolher, censura prévia à Imprensa tribunais de excepção
Para bem da cidade do país da cultura, é preciso encontrar o casal fugitivo
Que inventou o amor com carácter de urgência

Os jornais da manhã publicam a notícia de que os viram passar de mãos dadas sorrindo
Numa rua serena debruada de acácias
Um velho sem família a testemunha diz ter sentido de súbito uma estranha paz interior
Uma voz desprendendo um cheiro a primavera o doce bafo quente da adolescência longínqua

Daniel Filipe (1925 - 1964)
"A Invenção do Amor e Outros Poemas", Lisboa, Presença, 1972

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Neste País, não há lugar para...


Este País não é para "piegas". Passos Coelho disse...; com uma imensa autoridade que lhe vem donde ?
Passos Coelho esteve com Viriato, nos Montes Hermínios, combatendo, durante 3 décadas, o magnífico exercito do Imperio Romano ?
Esteve em Covadonga e nas Asturias, no seculo 12, contra os recem chegados árabes ?
Esteve em 1383/1385, na "arraia miúda", em Lisboa, Atoleiros e Aljubarrota, a garantir..., como o seu sangue num exercito de voluntários, um Rei escolhido pelo Povo ?
Esteve, em 1640, em Avis, Ameixial ou Elvas, a defender esse mesmo desígnio?
Esteve, nos anos trinta do seculo XIX, junto dos progressista, no "Cerco do Porto", no combate de 24 de Agosto, no desembarque do Mindelo ?
Esteve, em 1914/1918, na mais cruel guerra do seculo XX (a dita 1ª Grande Guerra), onde milhares de portugueses foram massacrados sem sequer saber ao que iam, tal como na hedionda guerra colonial ?
Poucos se podem orgulhar de lá estarem; contudo, sabe-se lá porquê, estiveram. "Piegas" não eram...
Podemos ser acomodados, suspiciosos, pouco participativos, mas , quando chamados a agir nos momentos das grandes decisões, do "dar a vida", de "piegas" pouco temos (basta pensar nos Bombeiros Voluntários).
Vamos lá de corpo inteiro. Somos tendencialmente heróis, nunca "piegas".
Somos Portugueses. Com quase sete séculos de História, coisa rara na Europa.
Passos Coelho é que não nos merece. Mas temos de aturar cretinos !

quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

A Associação de Estudantes da Universidade de Évora, 35 anos depois


Um amável convite para a tomada de posse dos orgãos sociais da Academia que ajudei a fundar, em 1978, fez-me interromper este silêncio "bloguista".
Mas a causa é justa, e após um noite académica, onde pude explicar a alunos e categorizados docentes coisas "singelas", como ver nascer o sol por detrás da Igreja de S. Francisco, em Évora, comer uma bifana no Mercado, ou ver as Ruas de Évora (e a Cidade) a amanhecer, sem gente, mas a cheirar a lavado, deixo-vos com a entrevista que dei ao Jornal UEONLINE, como fundador da dita Associação.
Para memória futura de alguem que não se arrepende dos caminhos que faz.
E paga as consequências...

"PERGUNTAS
1) Em que ano entrou para a Universidade ?
O então Instituto Universitário de Évora (IUE) havia sido criado em 1973, mas, de facto, a actividade lectiva só se iniciaria em 1976/77.
Entretanto, eu e os cerca de 30 alunos que formaram as turmas de Economia e Sociologia, nesse ano lectivo, tinham transitado da Escola Superior de Estudos Económicos e Sociais “Bento de Jesus Caraça”, que existia em Évora, desde 1974, mas cujos alunos foram, após anunciada a sua progressiva extinção, integrados no então IUE, no 2º ano dos citados cursos.
Portanto, entrei para o Ensino Superior em 1975 (Setembro), mas tornei-me aluno da hoje Universidade, em Dezembro de 1976, ingressando, com mais 12 alunos, na Licenciatura em Sociologia, 2º ano, curso diurno.
2) Como era a Universidade desses tempos ?
Em Outubro de 1976, o então IUE tinha dois edifícios (a “Mitra” e um “corredor no Colégio do Espírito Santo – o restante edifício ainda era do Liceu de Évora). Teria , nesse seu início de vida lectiva, cerca de 50 alunos, dos quais mais de metade eram os tais “transferidos” da tal Escola Bento Caraça. “Economia” e “Sociologia” eram os dominantes com turmas diurnas e noturnas.
Não havia residências universitárias, muito menos refeitório (só aconteceu em 1979, julgo) e havia um minúsculo bar, aberto, esse sim, logo em início de 1977. Os nossos “luxos” eram a Reprografia e a Biblioteca.
Havia mais docentes e investigadores do que alunos. Não podemos esquecer que o então IUE acolheu inúmeros professores das Universidades de Angola e Moçambique, que entretanto se tinham tornado países independentes, assim como alguns (seleccionados…) professores da tal Escola Bento Caraça, mormente os ligados á Companhia de Jesus (jesuítas).
3) Como surgiu a ideia de criar a Associação de Estudantes ?
É uma história “épica”, que recordo com orgulho e emoção. Vivíamos tempo de afirmação do regime democrático (o “25 de Abril” tinha sido há menos de 4 anos…) e, a par das clivagens naturais (mais ideológicas que partidárias), havia m grande desejo de participar e confrontar ideias. Recordo, as clivagens eram sobretudo deológicas, ou seja, de visão do Mundo e da Vida.
Os alunos da Universidade de etão, tinham, de acordo com o regulamento da mesma, uma forma de participação a vida académica, através dos Delegados e Turma e de Curso, eleitos pelos alunos respectivos, que articipavam nas Comissões Pedagógicas de Curso, órgãos consultivos onde também inham assento os docentes.
Numa Escola Superior onde faltava aquilo que hoje é básico (refeitório, residências, apoio social em geral), sses temas foram, por diversas vezes, debatidos pelos ditos Delegados de Turma ou Curso. Muitos de nós (apesar de repito, haver poucos alunos), não nos conhecíamos e foi nesse ambiente de “Delegados” que foram surgindo “conversas” sobre a necessidade de termos uma Associação de Estudantes. Estaríamos em Outubro de 1977, se bem me recordo.
Foram feitas algumas iniciativas de “sensibilização”, como uma famosa “açorda”, servida por nós nos corredores do Colégio do Espírito Santo.
Num tempo de aprendizagem da Democracia, e ainda bem, tínhamos grandes preocupações em que as ideias saíssem das bases, ou seja, dos alunos. Aí os tais Delegados, até porque eleitos pelos alunos, sentiam-se com legitimidade para avançar na criação da Associação. Eu era um desses Delegados.
Assim, numa reunião para a qual foram convidados todos os Delegados, os presentes decidem convocar uma Reunião Geral de Alunos que, ao que me recordo, teve sessão inicial em Novembro de 1977. A ordem de trabalho era simples e concisa : analisar a situação social e académica dos alunos e decidir sobre como se organizarem. Eu, o João Pires, o Telmo Morna e a Olívia Ramos(julgo não estar a errar), fomos eleitos para ser a Mesa da RGA e eu para presidir aos trabalhos. A RGA foi longa, tendo várias sessões em vários dias.
4- Como foi o processo de implementação ?
Foi rápido e participado. Da dita RGA saiu uma decisão histórica : criar uma Associação de Estudantes. Mas, se havia que definir os objectivos, a missão e a vocação da futura Associação, os alunos deveriam, se bem o entendessem, apresentar projectos de estatutos, a serem votados em escrutínio secreto, e o projecto de estatutos vencedor seria aquele que seria objecto da escritura de constituição. Feita a escritura, então convocar-se-iam eleições para os corpos
sociais.
Eu, como moderador da dita Mesa da RGA “permanente”, fiquei encarregado de conduzir o processo.
Foram apresentados dois projectos de estatutos. A clivagem era evidente : um deles, em cuja redacção participei, era defendido por um abrangente leque de gente de “esquerda”, desde os próximos do PS até á então UDP, passando por pessoas como eu, da esquerda ligada aos meios católicos. Aqui “reinavam” os alunos de Sociologia e Economia. Apesar de ideologicamente conotados, só 2 tinham filiação partidária. O outro projecto era classificado, por nós, como o dos “conservadores”, que reunia claras simpatias junto da Reitoria, por ser tido como mais “moderado”.
O projecto vencedor foi o tido como o da “esquerda”, numa votação extremamente participada, precedida de vários e acesos debates, no seio da tal RGA “permanente”.
Fizemos a escritura em 23 de Maio de 1978.
Tenho orgulho de constar como um dos outorgantes.
5 – A Reitoria da altura apadrinhou e apoiou ?
Eram tempos diferentes.
O Reitor Ário Lobo de Azevedo encarou a derrota do projecto de estatutos defendido pelos ditos “conservadores” quase como uma ofensa pessoal. Quando, logo após a escritura, são feitas as primeiras eleições para os corpos sociais, esse grupo nem se candidata.
O “incómodo” da Reitoria era evidente e caricato : nos documentos oficiais da Universidade (Notas de Imprensa, etc), as nossas iniciativas eram difundidas como sendo de “um grupo de Alunos” e, nunca, da Associação de Estudantes. Chegou-se ao ponto de nos ter sido cedida uma Casa, na Rua de Machede (que foi a primeira Sede da associação), pela Reitoria, e no documento de cedência constavam os nomes de cada um de nós, como os “comodatários” e não o da Associação…
“Last but not de least”, os serviços jurídicos da Universidade solicitaram, ao Ministério Público, a extinção da Associação, por inconstitucionalidade dos estatutos! Por isso, em 29 de Janeiro de 1979, tivemos de fazer nova escritura, corrigindo a versão inicial dos Estatutos. Só a partir daí deixámos de ser um “grupo de alunos”.
Portanto, as relações foram sendo sempre tensas.
Éramos tolerados, mas activos e criativos.
7. Como Presidente da Associação, quais foram os primeiros projectos ?
Eu presidi á tal Mesa de RGA de onde saiu a criação da Associação.
Optámos, logo que foram eleitos os corpos sociais, por manter um funcionamento quase que em “plenário de órgãos sociais” : não havia um Presidente, mas uma direcção colectiva mas com responsabilidades divididas; havia um “Núcleo duro”, do qual eu participava, que tinha sempre 3 pessoas, no mínimo, que garantia as funções que estatutariamente cabiam ao Presidente, Vice-Presidente e Tesoureiro : era o António Brito e eu, cujas assinaturas obrigavam juridicamente a Associação, e conforme os assuntos e temas, juntava-se a Margarida Fortio, o Gazimba Simão, o João Barradas, o Mira Nunes, o Xico Sabino, entre outros que me recordo. Enfim, havia uma espécie de “troika” permanente, de composição variada, mas onde eu e o Brito tínhamos de estar, sempre.
Atendendo a que eu tinha fama de conciliador e era tido como pessoa moderada, no seio da Universidade, tornou-se hábito ser eu a ter as relações institucionais e representativas, internas e externas, mais “delicadas”. Daí, quer eu quer o Brito, termos fama de ter sido Presidentes, nome que, como era norma “progressista” da época, nunca nenhum de nós usou. A não ser por obrigação jurídica. Fui, por isso, digamos, um Presidente só por obrigação jurídica e estatutária, no 1º mandato.
Retomando a resposta, os nossos projectos iniciais, no primeiro mandato em que participei, o da fundação, tinham a ver com dar dignidade aos alunos e ao ensino.
Significou dar vida á Universidade, aproximá-la da Cidade, através de iniciativas culturais abrangentes; significou, numa Universidade sem refeitório e com um bar diminuto, termos, na nossa Sede, um Bar, onde até refeições chegaram a ser confeccionadas; chegamos a ter uma livraria e papelaria a funcionar na sede; depois, bater-nos pela qualidade do ensino, num tempo onde alguns cursos mais pareciam um “asilo” de docentes a aguardar a reforma…; sobretudo, como dizíamos, tornar a Universidade “habitável”, ou seja, promover espaços de convívio, encontro, reflexão, para que os alunos sentissem que a Universidade era sua.
Recordo coisas concretas como a Revista “Semente”, os Ciclos de Conferências sobre os temas quentes da época, os torneios desportivos, as recepções aos novos alunos, mas, sobretudo, o ambiente da Sede, verdadeiro refúgio e aconchego para todos nós, numa Universidade que tardava a perceber que os alunos eram a sua razão de existir.
8 – Quanto tempo esteve na Associação de Estudantes ?
Fiz dois mandatos, ou seja, desde a sua criação (Maio de 1978) até que, em Julho de 1980, me licenciei e, logo, deixei de poder ser eleito e ser sócio.
9 – Qual a maior recordação que guarda desses tempo de dirigente associativo ?
Guardo o prazer de ter aprendido como funciona a democracia participada e ter-me tornado adepto dela : eu era um católico (hoje já não sou) de esquerda (hoje ainda sou), sem filiação partidária, mas que se teve de habituar a conviver com todas as “tribos progressistas” da época, desde a esquerda mais radical, á mais social-democrata; aprendi a ser mediador, a construir consensos, mas a ser radical nas causas e convicções. Aprendi a respeitar a diferença, sem prescindir da minha maneira de estar. Aprendi que, no campo das convicções, é bom dormir com a consciência tranquila, mesmo se acordamos sabendo que perdemos algo (ou tudo).
Se tivesse de destacar um facto, recordaria que essa minha faceta conciliadora me fez ser sempre “indigitado”para escrever (e dizer) os discursos para os atos públicos onde íamos e, sobretudo, um episódio onde , numa sessão solene comemorativa do aniversário da Universidade, interpelei o Presidente da República, Ramalho Eanes, sobre porque estava a pactuar com uma cerimónia onde os representantes dos alunos não tinham lugar na mesa….
É evidente que paguei vários preços por tudo isso.
Toda a gente me augurava uma carreira brilhante na Universidade de Évora (fui um dos 3 primerios licenciados do meu Curso e o melhor aluno…), mas quem tinha o poder nunca me “perdoou” que eu, que até era “bom rapaz”, agisse como um “perigoso esquerdista”. E, sobretudo, que não mostrasse o mínimo de arrependimento…
A AE foi uma escola para muitos.
Recordo que desses tempos da Associação, saíram pessoas como o Pinto Sá (hoje Presidente da Câmara de Montemor), o Zé Carlos Zorrinho (que tem tido vários cargos governativos), entre outros.
9 – Que diferenças no Ensino Superior da altura e o atual ?
Hoje o ensino superior tem uma estrutura organizativa, científica e pedagógica totalmente diversa.
Eu tive 5 anos de licenciatura e só 6 anos depois fiz um Mestrado…; sou adepto do chamado “processo de Bolonha”. Desde que não se fique só pela forma, mas que se entenda a sua filosofia.
Na altura, encontrar saídas profissionais, não sendo fácil, era a consequência imediata de se ser “Dr” ou “Engenheiro”, que mais não fosse a dar aulas no ensino básico e secundário, Esta visão da Universidade como um sítio onde se encontrava a “enxada”, tende a ser substituída com o encarar da Escola Superior como um local de produção e difusão de conhecimento.
O que me agrada, embora tenha deixado a carreira docente á quase 10 anos.
O movimento associativo também espelha o tempo actual, de mudanças.
Uma Associação de Estudantes deixou de ser, em exclusivo, o “sindicato dos estudantes” , para ser um parceiro natural de todos os actores da comunidade académica, nas discussões e acções.
10- Lembra-se da primeira Queima das Fitas ?
Começo por uma “declaração de interesses” : sou contra as praxes e critico vários aspectos das chamadas tradições académicas vigentes.
Contudo, vejo as atuais “Queimas das Fitas” como uma semana de festa, perfeitamente compreensível , defensável e, até, saudável (pesem as “tradicionais e imponentes bebedeiras”, que , no meu tempo, também se apanhavam, mesmo sem “Queima”).
Combati, activamente, julgo que em Junho de 1980, uma tentativa de se fazer a primeira “bênção das pastas” e “queima das fitas”, na Universidade, patrocinada pela Reitoria e por um (aí sim !)“grupo de alunos”, que então nos contestavam.
Fui um daqueles que, para contrastar com aqueles que vestiam a “farda de estudante”, fui á cerimónia envolto num lençol branco. Isto porque era um tempo onde o ressuscitar da dita tradição tinha um cunho claramente conservador e revanchista.
Portanto, não participei, de forma “politicamente correcta” na primeira “Queima das Fitas”, a não ser desse modo contestatário.
Hoje, ainda não me arrependi.

Termino saudando os Corpos Sociais da Academia que ajudei a fundar.
É o maior orgulho da minha vida tê-lo feito.
Há quase 35 anos…
Honra aos fundadores que já cá não estão : o Brito e o Pires, e outros, talvez"



quinta-feira, 3 de novembro de 2011

Porque somos presença necessária, participação indispensável

Encontrei este magnífico poema de Sofia Mello Breyner Andersen, que me confortou hoje e que aconselho a todos os que, num momento, sentem vontade de desistir de resistir :

Porque os outros se mascaram mas tu não

Porque os outros usam a virtude

Para comprar o que não tem perdão.

Porque os outros têm medo mas tu não.



Porque os outros são os túmulos caiados

Onde germina calada a podridão.

Porque os outros se calam mas tu não.



Porque os outros se compram e se vendem

E os seus gestos dão sempre dividendo.

Porque os outros são hábeis mas tu não.



Porque os outros vão à sombra dos abrigos

E tu vais de mãos dadas com os perigos.

Porque os outros calculam mas tu não.


Vou continuar viver assim, prometo !

quinta-feira, 27 de outubro de 2011

Crónica universal : TINTIN VOLTOU




Li, em francês, as aventuras de Tintim, em álbuns que algum dos meus irmãos terá a seu cargo, comprados pelo meu Pai, naquele esforço humanístico, continuado com o "Axterix", de aprendermos francês.
Comprei, numa das minhas idas a Bruxelas, o famoso primeiro álbum, até em versão portuguesa, "TinTim no país dos sovietes". Tremendamente reaccionário, claro.
Já conhecia, da infância, a "Ilha Negra", "Tintin no Tibete", "O Segredo da Licorne", "Tintin no Congo", "TinTIn na América"etc, foram obras da minha infância.
Daí que, na vida actual, encontre muitos "Dupont e Dupont", muitas Castafiore, muitos magníficos Capitão Haddock. E outros, que cada aventura revelava sempre com a assinatura de Hergé (ou melhor, RG).
TinTim voltou, com Spielberg, em 3D.
Vi os velhos filmes dos anos 60, no Cinema, ou a velha série que o Canal 2 foi passando, recentemente, a preto e branco. Tal como fez com o mais difícil Corto Maltese.
Ver (E VOU VER) TinTim de novo, no Cinema e em 3 D significa que, no mundo, ainda há lugar para um jovem repórter que acredita que o Mundo se muda; acolitado por tudo o que é mais desaconselhável, ou seja, pelo ébrio Capitão Haddock, pelos detectives falhados Dupond e Dupond, pelo cientista louco louco Professor Tornesol, pela balsaquiana diva e "sex symbol" frustrada, Castafiore.
É que, afnal, é com todos esses "vencidos da vida", que o novo Mundo surge. Desde que haja um TinTim que os anime e congregue.
Felizmente, começou a chover aqui onde vivo. E, por isso, vesti a minha gabardina tipo TinTim,; coloquei a minha boina, velha de 27 anos, como ele usava nos primeiros álbuns. Calças de golfe é que não uso e também não me faço acompanhar por canídeos. E para o penteado, já não há cabelo...; a minha luta é como a do TinTim, com os deserdados da vida a meu lado.
Ainda há Heróis, não violentos, que nos fazem acreditar na bondade do Mundo, construído com estes.
Eu preciso disso, hoje.
Por isso, logo que possa lá irei ver o TinTim. No Cinema e em 3D!

terça-feira, 25 de outubro de 2011

Crónica de Avis (VI) : Quando temos a morte na Alma


Ontem, "fui ao tapete".
Curiosamente, não porque bebi demasiado. Quem me dera !
Senti, sim, o poder do "mando" de quem diz que não e se refugia em argumentos vazios.

Daqueles que se esquecem de quem, com eles negociou algo.
De coisas que, em Janeiro de 2012, finais do mês, lhes servirá e permitirá um ganho "limpo" (ou seja, uma imputação/ um financiamento) de mais de 22 mil euros de salários, e agora dizem que que por as mesmas razões financeiras, não vão buscar financiamentos iguais, para os anos seguintes. Coisas de "amanuenses" a quem deram poder, que o encaram como nos "tempos sociais" do Estado Novo.

É triste : estou a falar de uma poderossíma IPSS de âmbito Diocesano. De raiz cristã.
Aqui entram outras histórias muito antigas como :
- De quem ia a colóquios, congressos e seminários , esperando saber como obter financiamento para um simples fogão, mas que agora já vê um pouco mais alem;
- De quem devia ter orgulho de em 2010/2011, ter dado formação a mais e 350 pessoas ( algumas de IPSS); que hoje se esqueceu disso e que diz que, por razoes financeiras, não o torna a fazer, mas nunca, de facto, teve orgulho no fazer DISSO.
- Tenho de esclarecer : estamos perante uma Entidade que garantiu mais de 11 115 horas de formação, perante públicos altamente desfavorecidos e com sucesso, por exemplo, num Concelho, como Avis, onde algumas coisas tinham de acontecer (e, por via da formação, aí vem um Banco de Voluntariado e uma Universidade Sénior).
Estamos perante uma entidade que, actuou no Alentejo ( Distritos de Évora e Portalegre), em sítios onde NINGUÉM ia fazer formação para a cidadania e vida comunitária, ou seja, os meios mais recônditos (Ciborro, Boa-Fé, Giesteira, Azaruja, Avis, Ervedal, Fronteira).

Que aceitou o "namoro" de uma grande entidade formadora que depois, "roeu a corda".

Mas sobreviveu. Aí teve coragem.

Hoje faltou-lhe isso, mesmo com "cadastro limpo"
E por isso , dizem que não se candidatam a mais a co-financiamentos para formação. Ou seja, a intervenção capacitadora para uma presença cidadã ou para uma acção social com mais qualidade, EMBORA COM FINANCIAMENTOS DISPONÍVEIS, não vai acontecer porque o "amanuense" que tem o "mando" disse que não quer. Isso mesmo, não se candidatam a mais. Podendo fazê-lo e, assim, servir as populações, mormente os últimos dos últimos, aqueles que ninguém "forma". Passos Coelho, afinal, tem seguidores, na saloia sanha contra a despesa...
Mas afinal, tudo isso pode morrer. Por decisão que quem faz contas ao "Clips", ao "papo seco", ao "cu" limpo ao idoso, mas não percebe que existe algo mais : fazer das gentes pessoas.

Fica a "caridadezinha". Consentânea com o Governo "pacóvio" que temos.

Hoje, eu pago o preço de ter sido protagonista da aventura onde quis dizer o contrário. E parecia que estavam a gostar. Até que veio o MEDO !

A dita Instituição acha, como disse, que não quer continuar. Fica na mesma, não arrisca. Logo, não precisa de mim.

Deixa, "orfãos" formandos em Ciborro, Boa-Fé, Giesteira, Azaruja, Fronteira, Avis, Ervedal, que, de tão habituados a ter as nossas sessões quase quotidianas, vão estranhar ela já não acontecer.
Deixa a falar sozinhos os promotores da Universidade Senior de Avis ou do seu Banco de Voluntariado.

Mas mostra estar á altura de quem governa o País: TEM MEDO DE ACREDITAR QUE HÁ MAIS VIDA, PARA ALEM DO ORÇAMENTO:

Hoje, essa Instituição (ou o "amanuense" feito decisor), não quer mais.
Percebo. Ele não percebe de tal.que eu percebo o seu MEDO.

Nem o PS conseguiu criar um sistema credível de financiamento para a ECONOMIA SOCIAL, por oposição dos actuais governantes. Não seria eu a confessos "amanuenses"
Resta saber o que sobra do Estado Social, perante acto destes, Pior, o que restará de um discurso dominante "caritativo" sobre o mesmo. Que, neste exemplo, saiu vitorioso.

Como aquele que eu hoje vivi, na minha pele: "Foste bom, vai-te embora e cura-te" (mas isto disse Stº Agostinho há quase mil anos).

Fico por aqui, pois a dor é muita. Estou farto de ir embora e "curar-me".

Aliás, sinto que estou a perder a última grande aposta da minha vida. Por culpa de "gente com medo", não com "responsabilidade".
Por isso, fiz a escolha definitiva de, enquanto tiver alma e vontade de lutar e enquanto sentir que aquela população me estima, continuarei o trabalho social em Avis. Mesmo que só como voluntário.
Nenhum iluminado "amanuense" feito "mandador" mata este trabalho.







sexta-feira, 30 de setembro de 2011

Crónica, de várias áreas geográficas, sobre a centenária República



A minha alma é demasiado parva.
Ainda me admiro com muitas coisas.
Ouvi, a 20 de Setembro, num sítio sério (um Tribunal), um autarca (a letra pequena não é erro, é opinião) Presidente de Câmara, que está no seu terceiro mandato (após um onde não foi eleito), dizer, nesse sítio respeitável, onde a Lei Fundamental e as dela emanadas valem, que, de facto, existem duas situações distintas, antes e após eleições autárquicas : até ao anúncio dos resultados, os candidatos "foram lá" por Partidos, Coligações ou Listas de Independentes. Depois, passam a ser eleitos do Município, logo, podem, esquecer os Programas pelos quais se candidataram e foram votados, e qual Estado Novo revisitado, mandar para "as urtigas" o Programa que subscreveram. E, por si mesmos, "casar" com outro Programa, "á beira do altar" !
Fiquei, nesse dia 20 de Setembro, admirado. Atónito. Estava a ouvir um Presidente de Câmara, no seu 3º mandato.
Mas logo perdi a dúvida.
Alberto João Jardim (eleito há 36 anos, sem interupções) declara, em 28 de Setembro, que "O seu Partido é a Madeira e o PSD é um seu instrumento." Repito, um seu instrumento ! Não há Programas, projectos políticos, mas, sim, um poder pessoal. Se o intrumento não fosse o PSD, seria outro ! Há, sim, um projecto de poder pessoal que, por razões "instrumentais", precisa de um Partido, o PSD.
Não gosto de Alberto João, mas ele, pelo menos, é sincero.
O Autarca, que, em 20 de Setembro, disse, perante um Tribunal da nossa República, a enormidade que disse, se o foi, só demonstrou o mesmo, numa versão menos corajosa : estar num registo constitucional que ainda não existe.
Não tem a coragem do madeirense : não diz que sempre viu na lei eleitoral um "instrumento".
Mas, tal como o madeirense, ganha eleições e tem os eleitores que merece e que o merecem.
Manuel de Arriaga, o Açoriano que presdiu ao primeiro governo republicano, bem disse, quando se desiludiu com o novo regime: "Vamos ter uma República sem republicanos, mas com beatos, sacristãos, bons chefes de família bem pecadores, habituais dos lupanares, das sociedades secretas, das mais soturnas sacristias, mas de uma seriedade impoluta. Logo que, quando nasce o Sol, vão dizer que são eles a República na sua pureza!".
100 anos depois, apesar disto tudo, sou Republicano, Socialista e amante (mas só dela, como ideia) da Cidadania.
E, infelizmente, estou a pagar por isso, á mão dos estúlticos que Arriaga enumerou...
E com muita honra.
Porque vivi na "terra" de Manuel de Arriaga, durante váios anos, transcrevo um exemplo da sua desilusão, relatado pelo escritor Augusto de Castro :
Augusto de Castro relata uma conversa com o ex-presidente Manuel de Arriaga pouco antes de este morrer, em 1917: "O velho, de admirável cabeleira de tribuno, de porte aristocrático e olhar romântico, que fora outrora um dos mais lindos rapazes do seu tempo, transformara-se em meia dúzia de meses, num velhinho curvado e triste (...) Arriaga contou-me os únicos prazeres do seu exílio - as flores, as suas telas, os seus poetas (...) Naquela tarde, sentado nessa saletazita que um raio de sol aquecia, contei ao pobre velho as minhas fáceis previsões. A política não fora feita para os idealistas e para os poetas, como ele - acrescentei. Arriaga escutou-me em silêncio, forçando um sorriso de comprazimento. Uma névoa de lágrimas velou-lhe o olhar. E como falando para si desenhando com a bengala no tapete pequenos traços trémulos, disse-me, com uma ironia em que procurou pôr altivez, mas em que apenas havia o fel de uma mágoa intraduzível: "Sou um criminoso político, meu amigo..." Quis consolá-lo e, para o fazer, lembrei-me de lisonjear o sentimento de popularidade e de justiça, que eu sabia ser a nota mais viva da sua velha alma de tribuno. "O povo que o estimou, continua, a despeito de tudo a amá-lo. Esteja certo disso. Ainda há pouco num teatro, o público, ao vê-lo caricaturado em cena, aliás sem o menor intuito desprimoroso, se levantou, numa manifestação de protesto e simpatia ao seu nome." E Augusto de Castro termina contando que, à saída de casa do primeiro Presidente da primeira República portuguesa, depois de comprar o jornal e ler que alguém se referia a Arriaga como "renegado e traidor", pensou: "Nunca, como nessa tarde, a política me pareceu uma tão cruel e sinistra coisa" (citado por João Medina, "História Contemporânea de Portugal", p. 257 e 258).

É com este tipo de Homem que a Rpública tem de ser feita. Não com os outros exemplos de pessoas que dei...